26.5.08

JÓIAS


Dizia que havia de guardá-las num cofre inviolável. E acrescentava: ao abrigo das mansas insinuações dos deserdados e das curiosidades de escribas ocasionais. Conseguiu os seus intentos. Uma incrustação de madre-pérola na porta robusta anunciava -Jóias-. A chave trazia-a pendurada ao pescoço, balanceando nas malhas de um fio de prata. Quando a dona arrefeceu de viver, a chave deixou-se tocar e mostrou uma minúscula inscrição: Pega as pérolas. Bebe as lágrimas. Até hoje ninguém se atreveu a abrir o cofre.


Licínia Quitério

21 comentários:

maria m. disse...

belo texto.

João Videira Santos disse...

Muito interessante...mesmo!

Eduardo Aleixo disse...

Gostei mesmo muito: é lindo.
Eduardo Aleixo
( À Beira de Água )

Perdido disse...

Pérolas, as lágrimas dos deuses. Colar de pérolas à tona da taça de champanhe...

"Quando a dona arrefeceu de viver," secaram-se-lhe as lágrimas e brotou um sorriso na comissura dos lábios.

Bj

batista disse...

não é preciso ver pra crer, já disseram.
percerber... a poesia, a dor...

uma beijoca fraterna

Graça Pires disse...

Ninguém quis beber as lágrimas...
Um texto excelente, como sempre Licínia. Beijos.

maria josé quintela disse...

belíssimo texto!

Lyra disse...

Olá,

Tropecei no teu blog e adorei!

Herdei, da minha bisavó, uma caixa de jóias assim...de madeira trabalhada com uma incrustação de prata que diz "Jóias" Mas chave, nunca teve...e a jóias lá permanecem, poucas mas lindas e dela, não minhas eternamente.

Até breve.

;O)

Justine disse...

Misterioso e belo texto, como convém quando se fala de pérolas e de lágrimas.
A foto, transgressora no grito das cores

legivel disse...

... nem eu -que me julgo com a coragem?! necessária para abrir algo cujo conteúdo me possa trazer uma fatia de felicidade, me atreveria. Se a inscrição rezasse "Pega as pérolas e bebe um copo." tudo bem. Agora "as lágrimas"? salgadas como elas são? e a minha tensão? ahn?...

Uma pérola de texto.

beijinhos.

herético disse...

lágrimas que são joias. raras...

belo.

M. disse...

"Quando a dona arrefeceu de viver": belíssimo, Licínia. Como são delicadas as palavras que assim dizem de pérolas e lágrimas!

samuel disse...

Esta convicto de que já tinha deixado aqui um agradecimento pela visita e comentário que fez. É a net no "seu normal" (ou eu...).
Sítio bonito, este. Irei voltando.

Abreijos

dona tela disse...

Sinceramente, acha que o meu blog é pimba?

Muitos cumprimentos.

~pi disse...

pérolas ar água

arco de

olhos

navegar ~

Maria Laura disse...

Podia ser o início de um conto pleno de poesia e mistério... ou tão somente a constatação da dor de viver.

batista disse...

fechou o cofre vazio de sentimentos
descerrou o véu do esquecimento
pegou as lágrimas, bebeu as pérolas
... e dos seus olhos raios de prata
tocaram a lua nova
revelando um sorriso de criança

(porque toda leitura é oportunidade de ver diferente...)

um abraço fraterno, Amiga.

tb disse...

É bom vir de vez em quando ler de quem sabe do ofício... :)
beijo

M. disse...

Aguardo a continuação da história no sítio ali ao lado... Observação e ironia q.b. :-)

CNS disse...

Uma joia. Este texto.

jawaa disse...

Obrigada por teres comunicado, pois encontrei um espaço de escrita sensível e muito bela.
Deixo o comentário aqui porque me tocou o que abordas.
Meu pai não gostava de pérolas, não gostava que minha mãe usasse as dela. «Pérolas são lágrimas», dizia.
Durante anos tive algum preconceito em relação a elas, mas a vida ensinou-me a ser mais prática: pérolas são lágrimas sim... de ostra!
Então uso agora sempre uma fiada linda que me ofereceu o meu Rapazito já homem, cinzentas como o meu cabelo, e ele fica tão feliz por isso!

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