19.6.08

REGRESSO


Pela janela da infância, o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste, com ganchos de tartaruga no carrapito.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava.
Os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas.
O piar dos pardais, à boquinha da noite, em luta por um abrigo nos braços do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos a rasarem a janela, com seu chiar de ratos.
As corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares: “Chiiu, chiiu, chiiu…”.
Os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava um novo mundo, encantado e bizarro.



Era então que o canário da vizinha Celeste, liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem fazer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais.
E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua.
Depois, num clarão, as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia, deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério

15 comentários:

Maria Laura disse...

Fizeste-me lembrar os sons da minha janela da infância. Sabe bem voltar, por vezes. E reviver um pouco o mundo que nos marcou os sonhos de criança.

Justine disse...

Belíssimo texto,poético e nostálgico, entretecendo realidade(imaginada ou recordada?) com sonho (vivido ou sonhado?). País onírico, a infância.
Soube bem ler-te, entre-abriu a minha janela :))

bettips disse...

Ah...o canário da minha infância! Todos os sons, mesmo os não alegres, eram raízes de esperança.
E das torres que julgava alcançar, um aceno quase real.
Linda.
Bjinho

heretico disse...

seduz-me essa (fugaz) música do mundo de pernas para o ar. em que tudo de vale...

("habita-me um melro cantador - e trocista- da minha infância. que me faz a vida negra. que raio de pássaro!...)

adorável. o texto...

legivel disse...

... o tal poema, assomou à janela da tua infância e trouxe-nos o "filme" que -de volta e meia, pelos insondáveis mecanismos da memória te é dado rever e que partilhas connosco. O Júlio e a Celeste vão muito bem e o tema musical a cargo do canário, está perfeito.

PS: Juro que não vim para aqui com pipocas.

beijinhos e sorrisos.

Perdido disse...

Gosto de ler coisas sobre a infância. Não importa se é a minha, se é a tua, todas as crianças são iguais. No fundo são o que eu sou.

E é por isso que gosto tanto de te ler. E desta vez estavas perfeitamente inspirada. Se calhar estás de férias, desinibida... Se for isso, não te venhas embora.

M. disse...

Especial, Licínia.

cuotidiano disse...

Como sempre, "incomentável". Só me resta não voltar a esta "gaiola" de comentários, tanto mais que não sei cantar...

Beijo

maria josé quintela disse...

todos temos uma janela de infância.


mas nem todos a conseguirão escancarar assim!


um beijo licínia.

maria m. disse...

bonito texto, a reviver-nos o imaginário da infância e a importância dos sonhos.

Graça Pires disse...

Por momentos foi emtrando pela minha janela toda a algazarra da rua da minha infância "inventada". Belíssimo texto Licínia. Um beijo.

João Videira Santos disse...

Sons da vida na comunhão das palavras...interessante!

dona tela disse...

Quer espreitar o projecto do meu novo "profile"?

Muito obrigada, mais uma vez.

busillis disse...

Gostei de ler e da sua sensibilidade...
Abraço apertado

batista disse...

Esse “Regresso”, teu, certamente é o “regresso” de tantas pessoas... inclusive o meu. Grato, de coração.

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