24.6.08

CANTATA DO DESASSOMBRO




Vou por entre as sombras
com uma saia de luz
e um trevo ao peito

Não sei dos símbolos
na casca das bétulas
nem da fala dos bruxos
curvados sobre a noite
nem do hálito das gárgulas
corroendo as pedras

Mergulho na água
a escrita das minhas mãos
e inauguro um livro
com a medida exacta
de um corpo nos meus braços

Sei da vida o que a morte me ensinou
A minha saia é luz e nada temo


Licínia Quitério

16 comentários:

Vieira Calado disse...

Um poema esbelto, bem escrito, escorreito.
Gostei.
Boa semana para si.

bettips disse...

Uma saia de luz que deixa o reflexo da palavra na água...
mansamente! Bjinho

maria m. disse...

belísssimo, Licínia!

Graça Pires disse...

"Vou por entre as sombras
com uma saia de luz
e um trevo ao peito"
Nada temes porque os poetas sabem os segredos da vida e da morte...
Um grande poema Licínia. Beijos.

alice disse...

a luz e a paz são denominadores comuns dos seus poemas, o que faz transmitir muita serenidade ao lê-los. é por isso que volto sempre e lhe agradeço com carinho. um beijo.

M. disse...

Lindíssimo, Licínia!

legivel disse...

"... e inauguro um livro
com a medida exacta
de um corpo nos meus braços"

Quando temos a percepção da dimensão das coisas corpóreas, então estamos preparados para o que der e vier. Os nossos braços são o melhor dos aferidores de tais medidas.

beijinhos e sorrisos.

Xavier Zarco disse...

Mergulho na água
a escrita das minhas mãos
Licínia Quitério


canto a memória dos gestos
as mãos entregues ao poder
das águas

acordo a música
rente à face dos dias que escorregam
como gotas na vidraça

ao longe a silhueta
da escrita denuncia um ritual
em que as palavras se iluminam
para o reatar da voz

onde o poema repousa
e aguarda as águas
onde as minhas mãos mergulham


Xavier Zarco

heretico disse...

uma saia brunida de estrelas.

poema belo. brilhante.

beijos

Patanisca disse...

Ai é tão bonito o verso "A minha saia é luz e nada tremo". Não cantata do desassombro, mas tocata do desassombro... porque me toca muito. Un bejo.

Maria Laura disse...

Aguerrido... e, como sempre, muito bem escrito.

Justine disse...

Palavras exactas e ousadas, a afastarem todo o rumor das incertezas. A darem-nos a dimensão da vontade de viver, ferozmente.
Fascinante, o teu poema!

O Profeta disse...

Espantoso poema...

Doce beijo

Marinha de Allegue disse...

-Unha saia de luz- encantoume a expresión e encantoume o poema enteiro.

Beijos artista.
;)

tempoparaamar disse...

Adorei seu poema, beijinho do Pico-Açores

JRL disse...

o que a morte nos ensina... gostei muito. um grande beijinho.

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