23.11.08

REVISITAÇÃO

UM DIA

Um dia, hei-de escrever, de descrever
o tempo em que não houve tempo
com palavras abstractas,
feitas de sílabas mortas,
que não querem dizer o que dizem
ou simplesmente nasceram
para não dizer seja o que for.

Um dia, talvez semeie enigmas nos poemas
que Édipo algum consiga decifrar
e fale de cidades que nunca existiram,
povoadas de gentes incolores e etéreas,
sugerindo ser e não ser não sei o quê.

Um dia, talvez deixe de repetir "um dia”
e diga seriamente “hoje era noite”
e recuse tudo o que é linear
e deixe de escrever coisas estúpidas
nascidas das feridas do meu mundo.

Por agora, vou dizer:
Um dia, quando eu for crescida, Mãe,
e a tua voz partir de vez do meu ouvido,
farei discursos exactos
que não sangram nem sorriem -
os poemas convenientes.


Licínia Quitério, em "Da Memória dos Sentidos"

Apeteceu-me revisitar palavras antigas que foram minhas. Um filho novo não me fará enjeitar o mais velho. Não seria justo.

21 comentários:

bettips disse...

Como tenho as "duas crianças" à cabeceira, desassossegando-me os breves minutos que lhes pego, às vezes, para os saborear como novos ...
acho bem que os relembres do sentido e da memória.
Esses poemas de viver e dizer, diferenças!
Bjinho

hfm disse...

Belo!

Arabica disse...

Licínia,


A revisitação é um acto de amor como o escrever.


Laços que perduram para lá do tempo.


Um beijo meu


PS: as malaguetas aguentam-se? :)

Mar Arável disse...

As memórias vivas

até podem ser

reconstruidas

porque tudo está em movimento

até as palavras

~pi disse...

rewind - belo ~

batista disse...

e ao revisitar palavras antigas, brindaste-me com um novo e belo poema, Amiga. valeu!!!

vida de vidro disse...

Nunca deixes de escrever "coisas estúpidas nascidas das feridas do mundo". É preciso haver quem o faça, com a beleza que dás às palavras. **

Justine disse...

Poemas convenientes, não creio que alguma vez os farás.
Poemas belos, de tecitura delicada e sensível, fizeste e continuas a fazer:))
Beijo

Maria disse...

Depois de te ler, e de ler as última linhas depois do poema, só te posso mandar um beijo com um sorriso...

Era uma vez um Girassol disse...

Parabéns pelo novo livro, Licínia, por ainda te manteres aqui a escrever tão bem!
Ando fugida dos blogues, o tempo não chega para descansar desta nova etapa no trabalho...
Beijinho da flor

M. disse...

E se é bela a tua revisitação! Ainda bem que o mostraste aqui.

CNS disse...

Que se pode dizer perante os teus versos, senão ... Belíssimo, Licinia!


beijo

Graça Pires disse...

Fizeste bem em revisitar-te. Um dia as palavras hão-de falar dos teus poemas. Um beijo.

mena m. disse...

Todos os filhos têm o seu lugar especial!

Seria um prazer assistir ao parto do próximo, Licínia!

Lindo este teu poema!

Um beijinho

Ad astra disse...

um dia....


beijo

OnlyMe disse...

Poema lindo. Vai de encontro a uma frase que digo e penso ainda mais. "Um dia nunca mais digo um dia". Quando será que isso vai acontecer? Jinhos.

legivel disse...

... e tens toda a razão deste mundo e do outro. O das letras de que são feitos os poemas.

E fizeste muito bem em dar a conhecer-nos este "outro filho de mais idade" que não deixa por isso de merecer tanta atenção como o que "nasceu" agora.

beijinhos e sorrisos.

Rodrigo Rodrigues ("Perdido") disse...

Ou será que foi o filho que voltou para visitar a mãe?

heretico disse...

não escreverás palavras abstractas. mas poemas feitos do barro das humanas coisas. e assim estará certo...

gostei de saber de todos os teus "filhos"...

beijos

Marco Rebelo disse...

sim senhora. Bom poema! :) passarei por aqui mais vezes.
td de Bom!

innername disse...

benditas as feridas que nos permitem partilhar estes sentimentos e desta forma tão harmoniosa. Mesmo que seja noite no tal dia. E o amor também tem medidas de conveniência, claro que bem demolhadas no amor de mãe.

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