15.3.10

É BOM HAVER COMBOIOS


É bom haver comboios que nos levem,
de gare em gare, nos trilhos das cidades.
Cidades abertas, com cheiros de enseadas,
cidades nocturnas de cais e contrabando,
cidades fêmeas de bocas frescas e maduras,
ou as outras de suores, de milongas e tragédias.

De assalto penetramos as cidades
para saber das praças, dos museus, dos bares,
nunca da febre dos homens humilhados
nem dos rostos de cera das mulheres veladas.

De cidade em cidade nos levam os comboios.
Contentes da partida, cansados da chegada,
na mala o tempo provisório da viagem,
vamos no meio da multidão, até ao dia
em que na gare deserta saberemos os nomes
da cidade que somos, do comboio que nos leva
do princípio do mundo até ao fim do mundo.

Licínia Quitério

17 comentários:

Mar Arável disse...

Adoro viajar nos comboios

mais quando eram lentos

Bjs

legivel disse...

Eis uma viagem que não me importaria de fazer: até ao Fim do Mundo. Dizem-me no entanto que não é barata, o que à partida (e à chegada) me inibe de a fazer. Prefiro o avião: é mais económico* e se se despenca chega ao fim do mundo num abrir e fechar dos nossos olhos. Mais destes últimos, que dos primeiros. O combóio é mais previsível - à excepção do alta velocidade que ainda não lhe conheço as manhas, mas que talvez experimente quando (e se) chegar aqui. ao continente negro, onde assento arraiais.

*Viajo por norma, nos de low cost, os tais em que já se idealiza (nas viagens mais curtas) viajar de pé. Uma pessoa nem precisará de levar (para se entreter p´lo caminho) frango assado. Basta um poço de ar, cabeça na fuselagem e é galo pela certa.

Eu sei que escrevi muito sobre os aviões e quase nada dos combóios. No teu próximo post prometo remediar isso: a bicicleta (outro meio de transporto que adoro) vem a seguir.

Beijinhos e sorrisos.

hfm disse...

Companheiros de viagens e de letras.

quicas disse...

"É bom haver comboios" para sentirmos "as cidades", todas as cidades, nesta viagem de que apenas (?)conhecemos o começo!
Beijo

Rui Fernandes disse...

Quando era jovem gostava de filmes. Na altura em que gostava de filmes era de filmes com comboios que eu gostava. Daqueles metálicos, esmagadores, com caldeira ou fornalha e uma chaminé a deitar fumo. Eram lindos e transportavam tropas alemãs para os precipícios a que a resistência os lançava. Eram românticos e transiberianos cheios de chic e de mistério. Faziam correr jovens americanos em europeias paixões. Também tive os meus comboios de ir à terra dos pais mas não conto como foi. Ou para dar uma escapadela até Madrid. Também havia os da linha de Sintra em que viajava de madrugada e em que dormitava até à estação terminal sem um chavo para o regresso. Depois, perdida a inocência, descobri que comboio só havia um, a correr fora dos carris e que não leva a cidade nenhuma. É, como numa pista de menino, o comboio que corre atrás da sua cauda: Já não tem partidas nem chegadas, já não vai ao assalto das cidades, as gares estão desertas e são varridas pelos ventos, como nos filmes, das cidades-fantasma.

Justine disse...

E vamos dizendo, baixinho: pouca-terra, pouco-terra, pouco-terra!Saboreando a viagem nas tuas palavras

Mel de Carvalho disse...

A nossa maior viagem, estimada Licinia, é a viagem que cada um protagoniza, usando de si mesmo, dos seus sentidos e que, a pessoas como a Lícínia, permite, em hora hora, o vislumbre e o deslumbramento do detalhe, capaz de gerar este tipo de escrita.

Sabe o quanto a admiro, já lhe deixei aqui nota, mas hoje apeteceu-me "pleonasmar-me" rsrs... volto a dizer: parabéns Licínia, "e bom haver (leia-se, estradas virtuais) comboios" que me tragam aqui.

Fraterno beijo da Mel

Rui disse...

Trem de ferro

(Tom Jobim e Manuel Bandeira)

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô..
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pato
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficia
Ôo...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Ôo...
Vou mimbora voou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Ôo...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

Vieira Calado disse...

Foi num comboio que dei de feroske para paris, antes do 25 de abril...

Gostei do seu poema.

Bjs

Graça Pires disse...

Gostei muito deste poema sobre os comboios que nos levam do princípio ao fim do mundo... A viagem de comboio é sempre tão agradáve...
Um grande beijo, Licínia.

Aníbal Raposo disse...

Lindo poema. Gosto muito de comboios apesar de não os ter na minha terra.

Beijos

Maria disse...

Saudades dos combóios da linha do oeste. Quando levava mais de duas horas a fazer 80 km até à capital. Paragem obrigatória e demorada em Torres, os pastéis de feijão e bilha de água. Do que tu te (me) foste lembrar...

Gostei do poema. Um beijo.

heretico disse...

gostei muito do recorte "futurista" do poema. o nosso comum amigo eng.º Alvaro de Campos iria concerteza apreciar...

claro que o teu poema exprime outras preocupações.

beijos

maré disse...

uma gare onde se morre
de tantas partidas

ou se re.nasce multiplicada de a.braços.


___
e prendeu-me
numa certa nostalgia.
beijo

arabica disse...

Somos comboios

pelo mundo...

arabica disse...

Eu tenho uma fome sempre àvida e nova de estradas e comboios; como já alguém o disse, nasci tb com a nostalgia das viagens, em mim.

Irei sempre até ao fim do mundo.
Em cada viagem, irei.

M. disse...

Que seria de nós sem estes comboios a fazerem-nos companhia na vida? Adoro comboios, têm sentimentos. Belíssimo este teu poema.

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