7.12.12

MANHÃS


A incongruência das manhãs está nos olhares dos homens que se perderam no estio quando esqueceram as canções com chave para o sonho,  o sabor do mel de rosmaninho nas bocas das mulheres, a debandada dos  falsos profetas, a volúpia da carne das cerejas, as danças em redor do fogo, em redor da alegria. Vagos os olhares dos homens a enfrentarem a humidade das manhãs, a escrita indecifrada das nuvens, a imobilidade das casas. Esqueceram o repique do sino, o silvo do comboio, a ladainha das ciganas, o piar da coruja. Apuram o ouvido e apenas ouvem o estilhaçar de espelhos. Dizem dos olhos dos filhos verde-seco em vez de verde-mar. Tornaram a dizer putas, perdidas as amigas, as irmãs. Ainda sonham mãe, mas dizem velha ao acordar. Já viveram demais, ou não viveram, ou aguardam o abrir de uma janela, de uma porta, de um regaço onde entrar e pousar as muitas mortes que souberam. Numa segunda vida, dizem, quem lhes dera ser árvore, regato, vento, alguma coisa que cantasse.

Licínia Quitério 

3 comentários:

Justine disse...

Perderam-se as raízes, resta apenas o supérfluo. E tu di-lo muito bem, amiga poetisa!

Mar Arável disse...


Tudo se move

até o vento

pena que se arrastem os valores

M. disse...

Comovente, Licínia.

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