11.1.14

AS CIDADES ABERTAS



Levei-te a passear nas cidades abertas, construídas antes de eu ter entrado nos dias da névoa e do ruído, antes da partida da rola de peito róseo a que faltava uma asa. Havia gente nas janelas, havia janelas nas casas, havia casas nas ruas, havia ruas na cidade. Havia e não havia. Por dentro de nós passava o mundo,  saía e entrava sem licença e não deixava traço nem poeira. Cidade que tocássemos passava a respirar na nossa mão, no nosso olhar. Assim voltávamos à cidade que não voltava a si mesma, que nada volta a ser o que uma vez vivemos. E nós já outros, e a imobilidade das estátuas a retardar-nos o passo, e nós caminhando sempre, pensando frutos e nunca os pronunciando, tal qual como nos sonhos em que passeamos por cidades abertas, sem névoa e sem ruído.


Licínia Quitério

1 comentário:

heretico disse...

luminosas as cidades em sintonia. de olhares e respirações de frutos indizíveis.

belíssimo.

beijo

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