10.4.14

À TARDE



Quando à tarde as dores se enovelam,
ao colo das mulheres é que chegam
os gatos macios, impenetráveis.
Seu pelo de segredos, seu olhar inefável.
É nas linhas da tarde que se prende
o sopro das manhãs, agora amortecido.
Por dentro das mulheres há vulcões,
terramotos, o fulgor do aço de perdidas
batalhas, e à boca acode-lhes o travo
da traição, à pele o branco do abandono.
Os gatos ameaçam os pulsos das mulheres
e elas deixam-se morder, imperturbáveis.
Na tarde acontece um fio de sangue
que elas lambem, saboreiam, contentes
por se saberem copo, corpo, fonte.

O tumulto do sangue, a doçura do sangue.
A mulher onde a tarde se implode,
no abuso dos gatos, e a aranha
a tecer no pessegueiro.

Licínia Quitério

5 comentários:

Ana Maria Diogo disse...

Um poema lindo, Licinia!
Mulheres e gatos - parceria envolvente e tão doce!

Mar Arável disse...

Um hino às mulheres doces

que não se vergam

Bjs

heretico disse...

sangue insubmisso.
e cálido em sua dádiva

beijo, Mulher!

tb disse...

Poema insubmisso. :)

Graça Pires disse...

Como sempre maravilhoso, Licínia.
Os gatos, as mulheres, o sangue.
A insubmissão das palavras.
Beijo e Boa Páscoa.

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