16.9.15

UM ACENO




Bastava um aceno
e as águas se fariam berço
e à tona os acossados viveriam
até os barcos aportarem

Outro sinal 
e na praia se abririam
mil braços de mulheres 
iluminados
candeias archotes relâmpagos
contra a noite
e o pavor das feras
Homens viriam 
trajados de deuses
aqueles deuses bons 
que tocam os irados
e os vestem de ternura
E a terra a abrir-se em estrada
e as farpas agora seda
agora bálsamo
e um cântico a erguer-se
à vida prometida

Um aceno bastava
e a dor morreria
Uma pequena luz
a perfurar a treva
a rasgar o deserto 
a acender estrelas
uma a uma
e os homens a caminho
e as mulheres a caminho
em sossego as crianças
o suave silêncio
a resgatar o estalido da bomba
o silvo da serpente
o horror

Um aceno um sinal bastava 
ou talvez não

Licínia Quitério

1 comentário:

Graça Pires disse...

Bastava um aceno, sim.
Que belo poema e que bela fotografia!
Um beijo, Licínia.

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