2.11.15

ENTRO NA TARDE


Entro na tarde devagar como na casa 

ou em corpo ou terra mansa.
Caminhar até liquefazer a pedra, 

até o choro ser igual à renda, igual à pluma.
Convocar os anjos subterrâneos, 

sabê-los a adejar, a iluminar as nuvens.
Quando entro assim na tarde, penso 

castelos que já possuí e derrubei, 
no excesso branco das manhãs.
Levantado o ferro, ignorado o fosso, 

vencidos os canhões e as correntes, 
entro na tarde com os meus pés de cera, 
nela me deito e corro e grito e voo.
Um cavalo relincha nas alturas, 

espantado pelo pasto novo que só a tarde cria.
Tudo isto eu inventei porque alguém 
me ensinou a entrar na tarde como se fosse casa. 
De corpo ou terra mansa eu aprendi depois, 
quando me achei na esquina do Outono, 
anunciado o Inverno e eu à rédea solta, 
devagar, a adiar a confissão da noite.

Licínia Quitério 

5 comentários:

Anónimo disse...

Amor como em Casa
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Licínia Quitério disse...

Obrigada pela citação do poema do Manuel António Pina, Anónimo (a). Semelhanças na forma, não no sentido. Acho eu.

Licínia Quitério disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Graça Pires disse...

Entro na tarde, contigo, amiga...
Beijo.

Poções de Arte disse...

Boa tarde, Licínia!
Vim voando lá da Elvira onde li um trechinho seu.

Adorei estas palavras. Também me transportaram para uma tarde de sonhos, na minha infância, com carinha de Primavera, final de tarde...

Abraços e ótimo final de semana,
Márcia.

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