1.1.16

PASSAM PONTES

Passam pontes e pontes, 
sobre pálidas águas, terras ásperas. 
Imóveis quase sempre as pedras.
Frágeis pontes do princípio dos dias.  
Atravessam os anos e escurecem 
as pontes do ocaso, trémulas. 
Carregam as pontes, abatem os arcos, 
passam a dizê-las imprestáveis. 
Uma margem, outra margem e eles 
indecisos, entre a fome e a fome.
Há quem se atreva à travessia
em busca de razão e nem a ilusão vá encontrar.
Ficar pode ser um destino, partir é fugir dele. 
Se ponte não houver, a nado vão ou morrem.

É isto o que sabemos dos escravos
de novo em movimento, torpedeando
os pontos cardeais, chamando norte
ao que o norte perdeu, negando o sul
que depois de os parir os abusou.

Licínia Quitério   

3 comentários:

Graça Pires disse...

Pontes entra a fome e a fome... Um poema que me tocou bastante, minha amiga.
Um beijo e um ano bom.

heretico disse...

um poema tocante. e marcante...

beijo

Rui Fernandes disse...

Um voto para que levemos até ao próximo fim de ano a nossa condição de migrantes sem eira nem beira. Cá nesta terra, porque se há outras, o que ignoro, estão sobrelotadas e não nos receberão.

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