7.5.06

DA LOUCURA



Caminha lesto o vagabundo,
à procura da origem de seus males.
Acossado pelos lobos,
ignorado pelos reis.
Tem encontro marcado,
anunciado pelo bater do próprio coração.
Os olhos navegam pelas pedras
que sabe serem estrelas.
Por vezes pega numa e a afaga.
Guarda-a no bolso com cuidado
e o casacão se curva desabado.
Vem do sítio dos loucos deserdados,
com montanhas de jade e de ternuras.
Pela boca falam vozes comandantes:
Agora vai, agora ama, agora mata.
Só não pode parar o vagabundo.
A urgência de chegar não o permite.
As mãos morenas afastam sombras
- intrusos a impedir o progresso
do corpo já cansado.
Se desatento, tropeça num coral, numa romã,
demónios mascarados de natura.
Mas logo se endireita e continua.
Quando parar, será de sopetão.
As vozes deixarão de o incitar,
as estrelas no casaco o brilho perderão.
E lenta, lentamente, seu corpo vergará
até ao chão.
Pela primeira vez, verá os muros do castelo.
Ilusão ou verdade? Não lhe interessa.
Já não pobre, não louco. Apenas corpo.
Até que os reis e os lobos apareçam.


São vagabundos? São andarilhos? São loucos? Vemo-los por aí. De noite ou de dia. Não têm idade. Perturbam-nos. Se nos olham, sentimos um vago remorso. Medo de virmos a ser um deles? Acredito que são uma das nossas fronteiras. Mas é melhor não pensar nisso.

Licínia Quitério

5 comentários:

herético disse...

Doe o teu poema como um remorso, sim! tens razão, são a nossa fronteira...

jorgesteves disse...

Uma rota de peregrino que demanda o seu próprio Graal?...
Cabalístico!
jorgesteves

lique disse...

Són eles sabem para onde vão, quais as visões que os atormentam. E é tão ténue a linha que nos separa!
Beijinhos e obrigada pela visita

http://mulher50a60.weblog.com.pt

Teresa David disse...

Não resisto a comentar através dum poema que postei no meu blog em Fev deste ano que me parece bastante afim com o que me fez sentir o que acabei de ler, e achei além da forma, o conteúdo tb magníficos:

CAMINHADA

Percorri muitos caminhos
em busca do horizonte.

Atravessei rios profundos,
longas planícies sem fim,
com o sol, a chuva, o frio
a darem cabo de mim

Desfalecida, cansada,
num torpor, quase desmaio
ensaiei a morte viva
desfiei o meu rosário

Depois de tanto pensar,
relembrar e padecer
uma vontade nasceu:
a de deixar de viver

sacudi-me, levantei-me
retomei a caminhada,
desbravei, recuperei,
a vontade de existir

Lá no fundo o horizonte
já me parecia mais perto

com o corpo em água feito,
com os olhos enevoados
pela poeira do chão,
alcancei o meu destino
e desfaleci de exaustão.

Teresa David/1995

JPD disse...

Belo pçoema Licínia.
A questão da (a)normalidade e da autonomia e sentido que se dá à vida, ao nosso quotidiano, a determinação do que se busca.
Muito bem.
Bjs

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