4.5.06

DOM SEBASTIÃO


Os braços tão pesados,
escorrendo corpo abaixo.
As mãos dentro das luvas,
não galantes
que para tal o tempo não chegou.
O corpo, assim franzino,
aos poucos devorado
pela doçura do mal.
Aos pés, o elmo
desmesurado, austero,
pronto para encobrir
os doirados cabelos
e depois deles a figura inteira.
Os ombros falsamente erguidos,
esperando que não venha
a luta por que esperam.
Olhos de loiça azul
abertos pelo espanto
de se verem ali no meio do dia
que só meio haverá.
No branco desamparo,
o podemos olhar,
o podemos chamar
de rei, de rei-menino,
Sebastião em pedra regressado
lá dos confins da História
para onde o expulsou
dos homens a cegueira.
Mandaram-no reinar e fez-se rei.
Mandaram-no matar e fez-se morte.
Mandaram-no voltar e fez-se mito.
Pelos tempos se tornou
remorso insuportável
e lhe chamaram névoa,
esperança, desejo, aparição
e tudo o mais que queremos
e (quem sabe?) tenhamos
aqui à beira mão.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Gosto de ir a Lagos e de me sentar à beira da estátua. Tenho tido longas conversas com este rei-menino. Ele fala-me de Alcácer-Quibir, onde ainda não foi. Da última vez que estive com ele, avisei-o de que anda por aí um Poeta chamado Joaquim Pessoa a dizer que "Em Alcácer eram verdes ...". Não me deixou continuar. Esboçou um sorriso matreiro e disse, pontapeando o elmo: "Os meus súbditos são tão ingénuos! Um dia até serão capazes de acreditar que me verão no meio do nevoeiro.". Sobressaltei-me. Terá ele tido alguma conversa com o Bandarra? Ou terei sido eu que desalinhei a História?
Deixei-o a brincar. Não consegui contar-lhe como acaba a aventura. Até porque, aqui que ninguém nos ouve, eu também não sei.

Licínia Quitério

8 comentários:

TMara disse...

belíssimo este teu trabalho. Obrigada. bjs e :)

De Amor e de Terra disse...

Olá Licínia! O teu sítio do Poema, é mesmo um Sítio de Poemas.
Belo Menina, muito belo este exemplo de amor ao desconhecido por amor a um rei-menino que sempre me apaixonou também.
Obrigada pela visita.
Regressarei! Prometo!
Um beijo
Maria Mamede

Era uma vez um Girassol disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Era uma vez um Girassol disse...

Uma verdadeira delícia...
Bjinhos

jorgesteves disse...

Vi algumas vezes esse marmóreo adolescente (cheguei, creio, até a cumprimentá-lo, uma vez que nos achamos sózinhos, na praça...).Não sei se ele sabe assim tanto dos seus súbditos; julgo, se ele soubesse, com certeza lhe contaria como acaba(va) a 'aventura'; ou, talvez, ainda melhor, como começava...
(belissimo texto, o seu!)
jorgesteves

herético disse...

Porém, a verdade é que o nevoeiro se adensa!

Mas gostei muito do teu Rei-menino: sem o Bandarra por perto.

JPD disse...

O João Cutileiro deixou muitos trabalhos em Lagos
Durante muitos anos esteve, frente à Estação de Correios, à esquerda deitado na relva, quando se caminha para a praça onde está esse D. Sebatião, um dorso de mulher, extraordinário.
Para surpresa minha, o ano passado já lá o não vi.
Pena. Muita pena!
Mais à frente, junto ao quartel há um tríptico delicioso.
Gostei tambem do teu texto, sobretudo pela agilidade da composição nos dois textos.
Essa ideia de fazer um (certo) contra-texto, à composição inicial é excelente...Bem, não será correcto «contra-texto, melhor seria adenda...Dir-me-ás o nome que achares melhor)
Bjs

LUA DE LOBOS disse...

A autora Maria de São Pedro, a Papiro Editora e a Fnac têm o prazer de convidar V.Exas. a estarem presentes para o lançamento do livro GATO PEDRA no dia 19 de Maio, pelas 19.00h na Fnac - Cascais Shopping.

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