5.9.06

DAS MÃES

Postal antigo

Afagam os cabelos dos filhos
com dedos desarmados
e pensam fios de linho
no tear das lembranças
do enxoval.

Do linho nascem panos impolutos
que com dedos armados vão rasgar
até que a fios tornem.

Quando os filhos partirem
percorrerão os vales
subirão aos montes
com os fios do linho nos braços
a cantar.

Alguns ficarão presos em silvados.
Outros se perderão pelos caminhos. Mas
a paciência das mulheres é infinita
quando se trata de voltar ao tempo
de afagar as sedas

ou de rasgar o linho até ao fio do olhar.

Recordas-te, Mãe? Eu tinha os cabelos ruivos e encaracolados. Sentias muito orgulho na cabeleira da tua Menina. Dizias, quando eu corria ao Sol do meio-dia, que a minha cabeça parecia envolta em labaredas. E, ao dizê-lo, os teus olhos verdes eram lagos de Verão.
Depois, o meu cabelo envergonhou-se e escureceu. Acalmou as chamas. Mas ainda hoje, se está feliz, ganha reflexos rápidos de cobre líquido.
Agora estás a dizer-me que um dia os meus cabelos serão brancos, como os teus. Vou gostar. Já que não tenho olhos de mar, terei um diadema de espuma branca, como as ondas.
Recordas-te, Mãe? Quando eu aninhava a cabeça no teu colo, os meus cabelos corriam em busca da seda das tuas mãos. Tudo ficava tão lindo, Mãe. Recordas-te?

Licínia Quitério

25 comentários:

PALAVRAPUXAPALAVRA disse...

Assim é tão bom recordar as mães! Quem me dera ter ainda esse colo.

pitanga disse...

É tudo tão doce quando estamos com as mães.
beijos

Era uma vez um Girassol disse...

Passo...Achei maravilhoso este recordar. Mas dói.
Beijos

Maria P. disse...

Eu também passo...faz doer.

Beijinhos.

herético disse...

atrevo-me a dizer que a tua cabeça continua "envolta em labaredas".

comovente o poema! brilhante o texto...

legivel disse...

Cara Licinia:

Não quero interromper este sentido diálogo entre mãe e filha com um comentário irónico que poderia ser mal interpretado. Assim, limito-me a deixar uma rima (coisa modesta... ), como são aliás, todas as minhas rimas, mas de boa vontade. Ora faça o favor de ler:

As mães têm os filhos
que um dia pais serão
as rimas causam sarilhos
umas sim, mas outras não.

Esclareço que, a obra que acabou de ler enquadra-se num projecto multi-cultural que me foi encomendado pelo Ministério da Agricultura e Pescas subordinado ao tema "Portugal um país de nabos e de pescadinhas de rabo na boca". O título é um pouco extenso, mas hei-de arranjar maneira de o encurtar.
Tive muito gosto em passar por aqui.

Albertto Legível.

canela_e_jasmim disse...

A minha mãe nunca me disse que os meus cabelos ficariam brancos. Mas o tempo, esse, não se esqueceu. Beijos mil

alfazema disse...

Sempre muito agradável recordar. E recordar as nossas mães ainda mais. Sempre a combinação perfeita entre o poema e o texto que o acompanha. Feizes os que ganham cabelos brancos. Por cá foram andando. Felizes os que vêem.
Beijinhos

Seila disse...

"verde de inveja(verde com ramagens, eu disse?)" ihihih que me estou ainda rindo! mas inveja para quê, melher, com um post destes. Liiiiindo!! um beijo!

Teresa David disse...

No dia em que meu filho parte para a Holanda por uns meses, este texto inevitavelmente mexeu comigo.
Bjs
TD

vida de vidro disse...

É verdade que a paciência das mulheres (das mães, neste caso) é infinita. Bem como o seu amor incondicional.
Que bonito, esses "fios de linho no tear das lembranças do enxoval" **

sabr disse...

Eu recordo. Que mais temos senão as memórias? Bom dia.

alice disse...

podia hoje ser um dia de inverno rigoroso que estas palavras me aqueciam ;)

obrigada, licínia

um grande beijinho para si e outro para a sua mãe (se me permite)

alice

sabr disse...

Eu sei que vens em paz. Bjinho.

sabr disse...

Eu sei que vens em paz. Bjinho.

OrCa disse...

"Quando eu aninhava a cabeça no teu colo, os meus cabelos corriam em busca da seda das tuas mãos..."

Lembremo-nos deste trecho quando nos perguntarem como exemplificar a linguagem poética, essa estranha e perturbadora forma de comunicar.

Um enlevo!

OrCa disse...

Ainda a tempo: grato pela dica.

Encontrar-nos-emos em Samarcanda. :-)

.*.Magia.*. disse...

Olá ...

Doce e ternurenta homenagem á mulher mãe e á mulher filha!!!!

Deixo um beijo "in" cartaz!

agua_quente disse...

Uma doçura, este poema. Um enlevo de palavras que nos acariciam. Gostei muito, mesmo.
Beijos

Klatuu o embuçado disse...

Bonito.

Hortência disse...

Deixei um comentário no post anterior... Se puder, leia.
Um abraço

mar_e_sol disse...

Com um nó na garganta me vou...e levo comigo memórias daquele colo, único, daquelas mãos, únicas, daquela presença que nos faz sentir tão especiais e amados!...
Beijo com carinho

Maria P. disse...

Olá vizinha!

Um bom fim de semana:)

APC disse...

Como disse Herético:
"comovente o poema! brilhante o texto...".
Absolutamente.

girassol disse...

Sabes, Apeteço-te esses reflexos acobreados nos cabelos. Apeteço-te! Se sinais de Felicidade...

Bj em ti

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