Piet MondrianSe eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que espuma são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.
Se eu ao menos soubesse por que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátárárí vibrante de corneta.
Se eu soubesse o que são, por que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desatino,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.
LICÍNIA QUITÉRIO, Da Memória Dos Sentidos
"... Estás só, agora, biliões de palavras se transformaram na vida - uma só que soubesses, a única, a absoluta, a que te dissesse inteiro nos despojos de ti. A que atravessasse todas as camadas de sermos e as dissesse a todas no fim. A que reunisse a vida toda e não houvesse nenhum possível da vida por dizer. A que dissesse o espírito do nosso tempo e no-lo tornasse tão inteligível que nem afinal o entendêssemos, o víssemos, como se não vê a luz mas só o que ela ilumina. A que redimisse tudo o que enche um viver e nada deixasse de fora como inútil ou desperdício. A que reunisse em si um homem inteiro sem deixar mesmo de fora o animal que também tem de ir vivendo. A palavra final, a palavra total. A única. A absoluta. ..."
VERGÍLIO FERREIRA, PARA SEMPRE




26 comentários:
Belíssimos estes dois textos! Encontro neles ligação ao meu post sobre os livros. Interessante este mundo. Vibrante! Um prazer estar-se vivo. Nem que seja só pela existência das palavras.
Curiosamente o meu favorito dele...belíssimo. Bom dia.
boa tarde .....POESIA!!!!!!!!!!
prazer.
um luxo.
beijo.
Olá Licínia!
Há já muito tempo que não percorria os passeios dos Blogs, por muitos motivos alheios à minha vontade...Acabo de voltar e AMEI as tuas Palavras.
Beijos e parabéns.
Maria Mamede
Belíssimos textos.Sabes que Vergílio Ferreira é um dos meus escritores preferidos? Até ao Fim e Para Sempre são duas obras que me sensibilizaram muito.Tenho um carinho especial por este escritor/ professor de Liceu que aqui na minha terra iniciou a sua carreira de docente. Pelas tuas palavras, que têm sempre o sabor puro da amora silvestre, deixo-te um beijo e desejo-te um bom fim de semana.
Excelente, claro!
Gosto do "Até ao fim".
Sabes que publiquei uma fotografia "no azul do roda-pé" em que aparece a casa, na altura Pensão Sta. Margarida, onde Vergilio Ferreira ficou algumas vezes em visita a Sintra?:)
Beijinhos:)
Excelentes!Ambos excelentes.
Não sei como agradecer os momentos que nos porpocionas.
Envio somente um beijo
"Se eu ao menos soubesse o são as palavras... "
... dava voltas e mais voltas à cabeça e nada! O que lhe foram arranjar logo pela manhãzinha de um domingo que até prometia algum sol e um passeio de bicicleta pela marginal. A máquina já estava dobrada era só pô-la na bagajeira do carro e ala que se faz tarde!
Esta coisa das palavras era um exame tramado aos seus conhecimentos... Que ele as usava era um facto; e por vezes até em demasia, pois lhe diziam que devia ser mais comedido. Mas isso não lhe estava nos planos mais próximos; a contenção verbal não era com ele, que até a pedalar falava consigo mesmo alto e bom som...
Decidiu-se. Ia mesmo bicicletar. As palavras, essas, iam com ele, pois claro. Da sua definição trataria depois...
óptimo domingo!!
... "se eu ao menos soubesse o que são as palavras... "
Assim é que está bem.
Será provavelmente essa uma das razões que leva as pessoas a escrever até se esgotarem.
Bjs
As palavras têm peso, mas o silêncio muito mais!
beijos doces
que posso eu dizer senão que as tuas palavras são belas e plenas de sabedoria? e algumas, como o extraordinário poema que deixaste no meu blog, tão intensamente povoadas de humanidade...
agradeço-te, sensibilizado.
Porque as palavras nos provocam essas inquietações, essa paixão e, ao mesmo tempo, essa incerteza sobre o que são, o que significam... por tudo isso e bela belez deste post, foi bom entrar aqui esta manhã. **
Mais um belo encontro de palavras de autores diferentes mas ambos poderosas na escrita.
Bjs
TD
que palavras escrever aqui? não tenho nenhumas capazes desse privilégio. fica o meu espanto e admiração. e um grande beijinho.
alice
Grandioso, Licínia!
Um beijo.
Olá,
Excelente!
Amei.
beijo grande
Isa
afinal estás de volta e eu nem tinha dado por isso!
...e das palavras - ou da palavra única, que contém todas as outras -há-de subsistir sempre o mistério...
um abraço afectuoso
A palavra, as palavras. E mais não sei dizer.
Fica bem.
Manuel
E com poucas palavras saio.
Um beijo pelo que li.
Olá Licinia,
que saudades de vir aqui ler essas tuas palavras.
beijos
MDB
fico assim, parada a olhar as palavras que trazem consigo a luz!...
Beijo sem palavras
esta comumpágina e inquietação pelas palavras. Em busca da palava cujo sentido esteja aonda inteiro, intacto. Da qual possamos voltar a dizer:« no início era o verbo» e ao verbo voltamos. Pq as palavras contèm a força anímica k torna reais coisas e mundos.
Bjs.
Luz e paz ao teu redor e em teu caminhar
Gostei muito da tua poesia :)
Beijos, Betty
maravilhoso, sempre, o Vergílio Ferreira e essa tua fotografia do Outono, Outono dourado e ... amado !
Fiquei sem palavras, Licínia! Que beleza... Os meus olhos, de repente, ficaram mais... aguados...
Obrigada pela sua escrita e IMENSA sensibilidade!
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