7.11.07

BEIRA-MAR



Os olhos das mulheres
cavalgam as praias desertas
e a acalmia das ondas

Ficam verdes os olhos das mulheres
no seu afã de adivinhar os peixes

Águas-marinhas crescem-lhes nos dedos
longos longos

Há estrelas-do-mar a rematar
as tranças de meninas
que chegaram do longe longe

Debruçam-se serenas
sobre a caligrafia andarilha das gaivotas
a ler histórias que os netos lhes contaram

Antes que a tarde as envelheça
acendem nas areias fogos altos
e pintam as cores do sol poente
e cantam líquidas melopeias
e cantam e cantam
as mulheres da beira-mar

Volta o azul. Devagarinho. Quado menos espero, em forma de poema. Azul de calmaria, de segredos revelados, de horizontes perfeitos, de sabores antigos de baunilha e erva-doce. Azul de me sentar à beira-mar.

Licínia Quitério, "De Pé sobre o Silêncio"

17 comentários:

Vasco Pontes disse...

Aleluia, irmã,
Que bem fizeste o poema, poema
:)

herético disse...

belo.

como as antigas Mulheres de Atenas! bordando as tardes de espera dos navios...

Graça Pires disse...

"Ficam verdes os olhos das mulheres
no seu afã de adivinhar os peixes"
Os segredos escondidos. Os segredos revelados. Muito belo o poema. Um beijo.

Era uma vez um Girassol disse...

Ès poema, minha amiga!
Está belissimo.
E tens presente no girassol...
Escolhe...
Beijinhos

Perdido disse...

Deixei-me ficar muito quedo à beira-mar ao abrigo das pequenas rochas. Presenciei emudecido o ritual das mulheres, o olhar extenso pousado no horizonte, o crepitar das chamas que mantinham sempre acesas, o cantar sussurrante que cheirava a maresia e a silêncio. Quedei-me perante uma presença maior, que desnecessitava a minha existência. Senti na boca uma intensa felicidade amarga (que vinha da corrosiva consciência do tempo). E, feliz, chorei.

Anónimo disse...

Não escrevi este texto, mas como gostaria de tê-lo feito, amiga! - contudo, fiquei imensamente feliz pela partilha. Grato, de coração.

E assim, reli-o muitas vezes, sempre tendo a sensação gostosa de ouvir o canto das
"mulheres da beira-mar",
ao redor das fogueiras.

Um abraço fraterno,

batista

APC disse...

Há tanto azul por brilhar, nas ondas dos dias... Antes que a tarde nos envelheça!...

***

bettips disse...

Isso, L., onde/quando/ainda somos capazes de o dizer. Como a tua volta à beira mar, com cheiros pequenos como éramos... Beijinho

Teresa David disse...

A candura, paz, beleza, qualidade que tanto prazer me dão sempre ao ler.
Bjs
TD

~pi disse...

reS guardo à linha da pele


animais antigos ecos

cidreiras criança e canela:




tecer-me


de resto S


no ra Sto.

un dress disse...

liquidaMente cantam

esperam as mulheres:

rostos azuis à beira-vida




beijO

Luadosul disse...

Muito bonito todo o que achei neste blog!!!!
Voltarei!
Beijinhos desde longe

M. disse...

Vim do outro lado, amargurada, do Relógio de Pêndulo que não nos deixa descansar. Ao menos aqui repouso um pouco no azul e na beira-mar.

O Profeta disse...

Um coração que segue em silêncio
Colinas, cumeeiras, doce aroma de pão
Descanso na paixão, caminho nela
Quantas estações, tem o coração?

Boa semana


Mágico beijo

Perdido disse...

No outro lado do Sítio, apontamentos, registos, memórias, cogitações, conversas muito interessantes. Li os últimos ( do telefone de plástico e do repete-repete ) e achei-os hilariantes. Os mais antigos ficarão para depois com mais tempo e mais calma.

Eduardo Jai disse...

Bonito.
Muito.

maria m. disse...

não tenho palavras.
gostei muito!

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