10.1.08

CENÁRIOS IMPROVÁVEIS 2






Poisa os teus olhos sobre o verde. Respira leve como se fosse o medo que te guia. Abre devagar a tua mão direita até que seja concha. Ajoelha-te rente à frescura da manhã. Bebe o inconcebível frémito da luz. Deixa o teu sangue correr pelas nervuras do outro corpo que não sabes. Nascer-te-ão palavras na garganta. Talvez consigas dizer um poema, gota a gota, e uma asa o deponha, com desvelos de mãe, no cálice da noite.

Licínia Quitério

15 comentários:

Sophiamar disse...

Vim ao encontro da cor, da imagem, do som...

Beijinhos

Maria Laura disse...

Nessas gotas depostas no verde perfeito, está decerto um poema. Que apetece beber. Devagar. Para matar a sede de beleza.

Graça Pires disse...

Poiso os meus olhos sobre o verde.
Para conseguir dizer um poema, gota a gota.
Um beijo.

Vieira Calado disse...

Embora em forma prosaica, o que escreveu é um poema.
Um belo poema!

herético disse...

frémito de poesia. gota a gota...

JRL disse...

talvez consiga dizer um poema agora que te li ;). um beijo.

un dress disse...

e depois o bebas.

num campo de infindáveis rituais.







beijO

maria m. disse...

«gota a gota», palavra a palavra, disseste um texto lindo,
da natureza, da madrugada, da criação poética.

hfm disse...

"Nascer-te-ão palavras na garganta"... como eu gostaria de ter escrito isto! Que beleza de texto!

~pi disse...

vale a pena fingir que não me afogo em lágrimas?


?


que me espero acorrentada neste som ácido



à face da noite mais que gelada


onde gota a gota tremo.

legivel disse...

Poisar os olhos sobre o verde é uma coisa que me vai custando cada vez mais, mas enfim: não seja por aí. Respirar leve, após anos e anos a fumar que nem uma locomotiva a carvão, é quase impossível mas prontos, respiro. Abrir a mão em concha, numa rua movimentada ainda vão pensar que ando na pedincha, por isso esse exercício devo fazê-lo com algum recato. Ajoelhar-me, com os ossos em mísero estado, é o mesmo que dizer que vou andar uma semana em cadeira de rodas para recuperar. Beber é coisa que não recuso, mas esse "líquido" de que falas não dá choques? Deixo, claro, "correr o sangue pelas nervuras do outro corpo que não sei". (o mais avisado é mesmo colocar as aspas nesta frase, não vá a minha Adozinda passar por aqui e dar-lhe uma coisa má ao ler isto. Palavras na garganta, sempre! Dizer um poema é que é mesmo improvável de todo. Essa parte do cenário fica ao teu cuidado e muito bem entregue.

batista disse...

gosto do que sinto ao te ler.
grato, de coração.

M. disse...

Ui! tinha escrito aqui o meu comentário e ele foi-se, por causa de qualquer erro informático.
Dizia mais ou menos isto: que ao ler estas belíssimas palavras senti como que se fosse sequência de expressão em relação às que escreveste no post anterior. Sinto-as como que a expressão de um crescimento interior que o ser humano vive ao longo da vida. A descoberta do amor através desse próprio amor e da vida. A criança, a adolescência. O crescimento físico e a sua ligação com os nossos sentimentos de gente. E as imagens fraccionadas, lindas, levaram-me também a esse sentir. Somos fraccionados em etapas de crescimento interior e exterior.

TINTA PERMANENTE disse...

Ainda hoje, apesar do cinzento que escorre do vento que vem do mar, reparei naquele arbusto que teima em rasgar verde o cerne castanho da carne que o frio lhe tisna. E encolho-me, por vezes, no desânimo. E volto a olhar o verde rebento. E, como o Poeta, vejo que é verde; mas por que é verde... não sei!

Abraço, amiga!

Ana disse...

Improvável é não ficar fascinado por este poema.
Bebo-o no cálice desta noite.
Um beijo.

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