24.4.10

25 DE ABRIL de 2010

Foi numa manhã  de chuva miúda que punha a cidade cinzenta e chorosa, igual ao rio. Que idade tínhamos? Sei lá eu. Adultos de vidas feitas, imperfeitas. Crescêramos à sombra da inquietação de nunca chegarmos a ter o sol nas vidraças sem cortinas. Por vezes cruzávamo-nos em salas bafientas, em ruas escusas, onde as falas se faziam de repente claras como se a luz afirmada as invadisse. Tínhamos amigos com quem podíamos soltar pragas e discutir o futuro como se dele tivéssemos certezas. Íamos lendo e descobrindo outras letras, de contrabando e ousadia. Desafinados, cantávamos baixinho canções que só nós ouvíamos, feitas por outros que viviam no perto ou no longe,  atravessando os túneis, saltando as devesas.
Na manhã de chuva miúda, descemos às ruas e corremos às praças e sempre nos encontrámos  e nos abraçámos e chorámos e cantámos, com a voz alta que tínhamos guardada. Soltámos o amor e ele fez caminhos imprevistos, com cheiro a cravos e cafés de madrugar. Foi há tanto tempo. Tempo de vidas vividas e acabadas. Tempo de ter ficado mais um tempo para contar que era uma vez  uma espingarda que floriu e  uma mulher que gritou o seu nome: Liberdade.

Licínia Quitério

21 comentários:

Maria disse...

Emocionaste-me, bolas...
E agora chovo e não vejo as teclas...

Um beijo para ti e um cravol de Abril!

bettips disse...

UM ABRAÇO
de cravos poetas
numa madrugada imensa.

Maria P. disse...

Um bom dia, com um cravo:)

Beijinho*

Justine disse...

Abraço-te com a mesma emoção e força com que o fiz - a ti sem te conhecer, a tantos outros-há 36 anos!
Beijo de Abril, amiga:))

Amélia disse...

Como não sou propriamente poeta, guardei este seu poema - o 25 de abril foi de cravos. Infelizmente agira murcharam quase todos.- Onde o lugar para a esperança?
Bem sei que«esperança o teu nome é teimosia/de querer ouvir as pedras a cantar».-dizia o JGomes Ferreira...É preciso é estar atento até conseguirmos ouvir a voz das pedras...
Um cravo para si

quicas disse...

Beijo de Abril, amiga, com um cravo de pétalas tão belas como as palavras do seu texto!
Viva a Liberdade! 25 de Abril, SEMPRE!

Alien8 disse...

Talvez. Um muito forte talvez. Para isso existiu a manhã de chuva miudinha. Para isso existem textos como este, que recordam, celebram e comovem.

Licínia Quitério disse...

É um choro bom, Maria. De lavar cansaços.

Licínia Quitério disse...

Bettips, imensa a madrugada que ainda em mim não se fez noite. Nem em muitos de nós.

Licínia Quitério disse...

Maria P., com cravos no peito é como sempre nos temos encontrado.

Licínia Quitério disse...

Justine, ainda não esgotámos os abraços. Há sempre um amigo à nossa espera.

Licínia Quitério disse...

Amélia, obrigada por gostar do texto. É uma prova de que ainda espero que as pedras cantem.

Licínia Quitério disse...

Quicas, pelas palavras de Abril nos vamos encontrando.

Licínia Quitério disse...

Alien, Gostei de vê-lo por aqui neste dia de semear palavras e abraços.

Filó disse...

Magníficas palavras sobre o 25 de Abril e da Liberdade.

Beijo amigo

Licínia Quitério disse...

Filó, obrigada. As palavras de Abril moram no meu peito. Depois, é só arrumá-las :)

Mar Arável disse...

Um dia

de novo

seremos crianças

em ABRIL

Licínia Quitério disse...

Mar Arável,

Crianças podemos ser todos os dias, brincando às escondidas com a esperança.

Graça Pires disse...

Um texto emocionante, Licínia. Para não esquecer que a Liberdade é o nosso bem maior.
"Íamos lendo e descobrindo outras letras, de contrabando e ousadia."
É o que continuamos a fazer.
Um grande beijo.

Licínia Quitério disse...

Muito obrigada, Graça, pela sua gentileza de sempre.

Um beijo.

M. disse...

Já venho um pouco atrasada em relação ao dia, mas penso que isso não tem grande importância porque o que dizes de maneira tão bela é sempre actual.

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