23.12.10

IMAGENS



Miríades de imagens na película dos dias. Rostos vagabundos  na folhagem. Palpáveis os segredos muito antigos, decifrados. Os passos nas areias, o chapinhar nas águas, o gemido do amor a perceber a morte, o piar da coruja contra o chiar do rato. Altivos avançamos e os nossos pés doridos dos caminhos mais duros que a vontade de os fazer. Os olhos alagados  da cor dos temporais e das bonanças. Seguimos o leito do rio inconformado e os canaviais assobiadores do vento.  Porque sabemos da mulher de Lot, jamais retrocedemos, mas a dor do passado é um rasgão no ventre, uma saudade. E as imagens, em desfile incessante, a morderem os flancos, a queimarem o peito, a atarem gritos na mudez. Caminhamos na procura dos nomes  e dos corpos e dos rostos vagabundos, imprecisos, navegantes nas margens de um outro rio, outra estrada, outra estação, outra galáxia, outros que somos sendo os mesmos. Miríades de imagens nos contemplam. São a película dos dias.

Licínia Quitério


Aqui deixo os meus votos de um Natal de Paz e Amor para todos os meus queridos leitores.

Licínia

19.12.10

AJUDA-ME





Ajuda-me. Este cansaço pesa nas palavras e eu não digo mais o sabor da alegria, o riso da manhã, o poder da montanha, o murmúrio das marés, o crepitar do amor em nossas mãos. Ajuda-me. A inclinação das ruas tornou-se insuportável e eu preciso subi-las para abraçar a memória da pele das rosas, do veludo do café, do abrigo das madeiras. Eu sei, as andorinhas voltarão ao recorte do telhado, o plátano será mais uma vez a capa do meu verão, saberei ainda adivinhar os barcos na transparência das casas, soltarei o riso na indecisão dos nevoeiros, na adolescência dos peixes vermelhos. Quero trepar a escada dos sonhos adiados, das promessas de pão, do brilho do oiro, da luz una e dividida, da paz, da paz. Não me deixa este cansaço de mil vidas no meu peito. Ajuda-me. Eu espero.

Licínia Quitério

12.12.10

CAVALEIRO TRISTE



Também eu esgrimi contra gigantes 
e a minha espada  não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu 
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo. 


Licínia Quitério

Foto da minha Amiga Bettips

5.12.10

INVERNO



Na fímbria dos invernos há cidades desertas onde os nossos dedos arrefecem. O trote de um cavalo branco escreve no empedrado os nomes dos construtores dos fornos, das cisternas, dos celeiros, dos estábulos, da ponte velha, da ponte nova, do cruzeiro, do quadrante solar. Para trás ficam as águas das fontes, do ribeiro bravo, da ribeira grande, da sede das gentes, da sede do gado. Destrancados os portais, o vento dá-lhes o chiar dos gonzos e o choro das madeiras. Nas casas vazias do inverno quebram-se os vidros na violenta agonia dos pássaros perdidos da viagem. Um relâmpago breve acende lembranças de sol na melancolia das ervas, no esverdeado das paredes, nas crinas impantes do cavalo. O desamor do inverno envelheceu, sujou, adoeceu o rosto da cidade. Só lhe resta esperar o cavalito branco, a galopar, pelo trilho dos nomes, a anunciar as novas seivas, o regresso das aves, a chama renovada dos amantes, contra o frio, o gume, a escuridão.


Licínia Quitério 

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