23.3.11

TÃO ESTRANHA A NOITE


Tão estranha a noite. A noite e os   escombros, cicatrizes de diurnos abusos, esconderijos de vigilantes répteis e seus membros renascidos. No meu coração a pele dos muros, alfabeto de povos chacinados no sono acre dos deuses. Cabeleiras vegetais alongam  os ombros da noite,  encobrem a desistência das pedras, desenham tranças e cabalas. Há homens que acendem luminárias e as põem a vogar na noite. Com elas os espectros e as gargalhadas tracejantes onde não poisam flores. Nos meus olhos a grande lua e os seus presságios de nascimentos fáceis e marés altas e súbitas germinações. Ela me deixa aperceber o recorte do polipódio, verde pela manhã.

Licínia Quitério

8 comentários:

Mar Arável disse...

Quando a ficção se torna realidade

apetece amar melhor as palavras

Bj

Eduardo disse...

Palavras que são pinceladas, bem arrumadas, num quadro de noite, sonhos e pesadelos.

Justine disse...

Há os homens que controem noites, há a poesia e os poetas que nos vão dando alguns fulgores de humanidade!

Maria disse...

Apesar de tudo, eu amo a noite... é tudo mais verdadeiro.
Para mim, digo eu...

Um beijo.

OUTONO disse...

Quantas vezes estranha, quantas vezes amiga...
A noite será dia e o dia será noite...uma questão de olhar sentido!
Gostei!

hfm disse...

Ausente durante uns dias que bom foi vir aqui e encontrar um texto tão belo!

heretico disse...

fulgurante. na vertigem de "gargalhadas tracejantes"...

beijos

M. disse...

Dolorosamente belo.

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