30.3.14

SE NÃO SABEIS



Se não sabeis da minha sede
porque me dais água?
Se não entendeis o meu frio
porque me dais roupa?
São tão altas as minhas montanhas
e vós falais dos degraus lá de casa.
Eu não canto vós sabeis.
Porque falais então na minha voz?
Só me serve este ínfimo quarto
onde guardo o meu cofre
que vós julgais cheio.
Ignorais o nada com que o encho.
Aceito tudo menos
a vossa compreensão.

Licínia Quitério

23.3.14

QUANTAS VEZES


Quantas vezes passou já não se lembra.
De ponta a ponta foi se lhe pediram
uma côdea de pão ou uma sardinha
que nesse tempo se partia e não chegava.
Palmilhava os becos e decorava os passos
de curva a contracurva da rua que diziam
escondia lobisomens e outros homens.
Se alguma vez os viu e neles demorou
a frescura 
esqueceu
para apagar as nódoas da vergonha
a cor do asco e da gordura.
De tanto se esquecer já não pode afirmar
sem mentir que se mudou da rua ou talvez
ou talvez
a rua a esquecesse e os homens partissem
e só os lobos lembrem o seu corpo de pedra
a curvar a deitar a erguer 
e uma erva a nascer.

Licínia Quitério

19.3.14

PAI



Era o único homem lá de casa e eu aprendi a dizer Pai

Quando ele chegava e me pegava ao colo
Ou me ensinava a caminhar com os meus pés
Nos dele, para trás, para diante, as minhas mãos nas dele.
Continuei a dizer Pai, a pensar Pai,
Mesmo quando me zangava com ele
Ou fingia zangar-me para me tornar crescida.
Com ele descobri as letras no caixote de madeira
E havia um K e ainda sei qual era a palavra.
Levei muito tempo a livrar-me dele
Que queria saber tudo de mim e eu não
Queria que ninguém soubesse de mim.
Só me livrei dele quando começou a
Contar-me segredos para eu guardar.
Foi sempre o único homem lá de casa
Até que eu mudei de casa e o deixei
Para poder visitá-lo sempre sempre,
Até ao dia em que ele se tornou meu Filho
E também Pai que isso nunca deixei de lhe chamar.

Licínia Quitério

18.3.14

UNIVERSO


A frase debruada, a palavra lavada, a música escorrente. 
Um fio de verdade, uma concha de vento, um aperto de mão. 
Pode ser um poema, pode ser um anúncio, pode ser uma pena.
Uma estrela nascente ou uma estrela morrente. 
Um universo no cais do coração.

Licínia Quitério








VIVA


A estação era seca
e os vampiros sugavam os humores
que deviam criar duendes nas florestas.
Como um clarão preso no nevoeiro
ou um relógio mole a escorregar da torre
ou um sino que perdeu o tino e a aldeia,
o silêncio era um monstro
a sufocar
e a reclamar afagos impossíveis.
Estava eu viva e dormia.

Licínia Quitério, 2004

foto de escultura de Rui Chafes, "Enquanto eu vivia", 2013

8.3.14

LÍQUIDOS


De água falo, mesmo que de corpo,
terra, secura, tremor de mãos, viagem.
Antes que o dissesses, não sabia que
meus versos eram inundação e leito.
Líquido escorrente, amor primeiro,
a fazer-se enchente e alagar e, se não
bem percebido, a afogar a boca da inocência.

Sobolos rios me agigantei, dentro dos rios
caminhei, a linha de água paralela ao oiro.
Há peixes nos meus versos, bem os vejo, 
signos, luzeiros, exclamações, inúteis peixes 
quando a água da lua se despe e se insinua.

Licínia Quitério

6.3.14

CINZA


Quem me dera vermelha a cinza do poema,

vermelha e quente, escandalosa e quente,
a insinuar bandeiras embrulhadas em gritos,
deserções de efebos dos salões da guerra.
Quente a cinza das palavras esculpidas
no respirar dos povos, na ternura branca
das mãos, que são mães, que são mar
aberto aos barcos carregados de sol.
Da cinza fria, cor da cinza fria, renascem
teatros de milagres, reverberações,
aves imateriais, imunes à peste, ao dardo.
Quero um poema vermelho, escaldante,
que a cinza seja sangue e escorra 
das pedras dos castelos e alimente
o corpo há tanto tempo lacerado
dos que se retiraram, deliberadamente
cegos, para os desvãos da cidade.

Licínia Quitério

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