27.3.15

EU A ROLAR NA PAISAGEM


Eu a rolar na paisagem, 
dormente, 
dizendo, vamos.Eu levada pelo rodado do dia, 
a pensar nas árvores derrubadas, 
no grito das árvores, 
no suor do lenhador, 
na raiva do lenhador presa à fome dos filhos.
Os gritos das árvores acesas, 
o rosto malvado do lenhador, 
a panela ao lume, 
a fervura do caldo.
Benditas árvores 
que são lume 
que água não apague, 
que caldo é muro contra as fomes.
A chaga no peito do lenhador, 
e a mulher por detrás do fumo, 
por detrás do caldo.
Ah não há fome que resista 
à fúria do homem vestido de lenhador, 
a enfrentar o pavor das árvores.
Logo mais,
o silêncio. 
Por detrás do fumo, 
o rosto da mulher, 
da vestal manchada de nascimentos, 
a apagar-se.

Licínia Quitério

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