27.4.15

A CASA



Não andava pela casa. Era a casa. As paredes abriam-se à sua passagem. Faziam-se portas e janelas viradas para lugar nenhum, mas de que se podia dizer rua ou quintal. Escutava o soalho a falar palavras antigas, sem sentido. Havia o tecto manchado de céu, de asas de borboleta. Não havia móveis. Ela sabia que há muito tinham fugido para áfricas, brasis, onde voltaram a ser árvores, antes do lenhador. Vozes na casa, nos corredores da casa, nas salas vazias. Vozes doces, redondas, limpas de estridências e soluços. Para lá das paredes abertas, os quintais em volta. Do húmus, a forte germinação das sementes. Um canto de pássaros do sul a rasar as copas, a rasar as estevas. Sem flor ainda, as estevas. Na mão, a lâmina de sol. Brandiu a espada que da lâmina nasceu. Um grito de fera ferida irrompeu da terra, atravessou as paredes abertas, cravou-se no azul do tecto. Fez-se noite. Ela deambulava pela casa, sendo a casa, quando a noite acabou e os móveis regressaram das florestas. O miar de um gato nas redondezas trouxe-lhe o despertar. Fechou a janela do quarto. No tecto havia aquela mancha que lhe lembrou um urro de animal. Não a apagaria.

Licínia Quitério

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