22.6.06

PUTA DE VIDA


Toulouse-Lautrec - Au Salon de la Rue des Moulins

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


FERNANDO ASSIS PACHECO


Lembras-te do barquinho de papel? Sim, de papel de jornal. Sempre foste muito exacto. Na vela podia ler-se: "Vende-se cachorro". Foi por causa do peso do cachorro que o barquinho adornou. Não, não foi o vento. No vale, o ar estava imóvel. Por isso o charco sem ondas. Foi o meu olhar que empurrou o barco. Se o cachorro se afogou? Não. Saltou a tempo para o ramo do salgueiro. Tu não viste. Estavas tão entretido a matar formigas. Ontem vi o barquinho aos pés da nossa cama. De vela panda. Não ouviste ladrar? Estavas a dormir, eu sei. Já não te interessas por formigas. Eu ainda gosto dos cachorros escritos nos barcos. Até amanhã.

Licínia Quitério

17 comentários:

De Amor e de Terra disse...

Olá Licínia e Parabéns!
Pela escolha (poema e imagem)
pela sua prosa poética, lindíssima.
Obrigada ainda pela sua visita ao meu Blog.
Voltarei, pode crer...
Fiquie fã.
Beijo
Maria Mamede

jorgesteves disse...

Tive saudades do Assis, dos barquinhos de papel e do cachorro que havia lá no fundo da rua do Loureiro...
As saudades são secas; frescas e cristalinas são as palavras que por aqui se acham...

amizade,
jorgesteves

agua_quente disse...

Também gostei mais do texto. Ainda que lhe tivesse encontrado um gosto levemente amargo.
O do poema é totalmente amargo.
Beijos

Tons Pastel disse...

belo poema, belo o texto que o acompanha. Fico sempre deliciada com um e outro e saio muito mais rica do que entrei. Fernando Assis Pacheco de quem tanto gostei e gosto...
Um beijinho

JPD disse...

Belos textos.
Beijinhos

herético disse...

Fernando Assis Pacheco, Presente!

o texto é de uma delicadeza tão íntima, que não me atrevo a pertubar, com um ligeiro (e deslocado)comentário...

alice disse...

querida licínia,

espero-a bem e harmoniosa e linda

este post é de uma subtileza tão doce e fina que arrepia, adorei

mas ninguém pediu a minha opinião!

desejo-lhe um bom fim de semana

que o balão de são joão voe no seu coração

agradeço as suas visitas e palavras

um grande, grande beijinho,

alice

alfazema disse...

Ora muito bom dia aqui no sítio do poema.E um bom S.João.Reli Assis pacheco e o seu texto com todo o gosto. beijo

DE PROPOSITO disse...

Um bonito poema, que aborda um tema 'perturbante' para os pudicos (as) deste país e onde nunca se cita porque é que existem, nunca se diz que se não houvesse clientes a situação não acontecia.
Fica bem.
Beijinhos.
Manuel

greentea disse...

SE EXISTEM É PORQUE TÊM CLIENTELA E NÃO SÓ...
HÁ UNS ANOS PUBLICOU-SE NUMA REVISTA UM ARTIGO SOBRE VIDAS DUPLAS.
UMA PSICÓLOGA SUPOSTAMENTE BEM CASADA COM UM EMPRESÁRIO DE BOA SITUAÇÃO, QUE DIZIA ELA AMAVA O SEU MARIDO...
TINHA DIAS EM QUE IA A CASA MUDAR DE ESTILO , DE ROUPAGENS E DE VISUAL E IA PARA A ZONA DA TORRE DE BELÉM, ARMADA EM PROSTITUTA; SÓ "ATENDIA" CARROS DE ALTA CILINDDRADA , BOAS MARCAS PORQUE , PORQUE LHE DAVA OUTROS TONS À VIDA, MAIS ADRENALINA E MAIS NÃO SEI O QUÊ, NÃO SEI SE CALÇAVA LUVAS OU MEIAS DE RENDA OU SE POUSAVA NUA...

UM DIA O MARIDO DESCOBRIU-A, TALVEZ ANDASSE NOS MESMOS MEANDROS, QUEM SABE.
O CASAMENTO ACABOU-SE, COM GRANDE PENA DELA!

UMAS EXISTEM PORQUE TÊM CLIENTELA; OUTRAS PORQUE GOSTAM DE O SER...

Hortência disse...

obrigada pelas delicadas palavras deixadas em meu blog...
beijos

lique disse...

Um poema sobre uma triste realidade. O texto é de uma íntima delicadeza absolutamente extraordinária.
Beijinhos


http://mulher50a60.weblog.com.pt

marginal disse...

Hoje e sempre o tema do poema é perturbador. Brilhantemente conjugado com a fotografia.

Era uma vez um Girassol disse...

Fiquei amarga ao ler o poema...Tema que mexe com as mulheres, decerto.
Mas o teu texto ainda me deixou mais.
Bjinho

legivel disse...

Deixei-te aqui um comment que apaguei porque a referência que fiz ao autor do poema que editaste neste post nada tinha a ver com esse mesmo autor mas sim com outro.
Do meu lapso peço desculpa.

Isso não invalida porém que a minha opinião sobre o poema própriamente dito, se mantenha; escrever sobre as duras realidades da vida, incomoda . Mas se assim não se fizer, como havemos de distinguir o paraíso do inferno?
... e que a tua prosa, faz uma óptima companhia a tal poema.

beijos.

legivel disse...

... já agora -porque não?, o o outro autor era Luiz Pacheco; de vida bem diversa da de Assis...

filipasaojose@clix.pt disse...

Meu Deus que saudades! tuas, do "matador de formigas" e até minhas!
parabéns amiga...
Filipa Gonçalves

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