12.4.07

ARTES



"LES TROIS ARTS" - óleo sobre tela de JÚLIA CALÇADA

Só podia ser a sépia, respondia. O que a pintora queria mesmo é que fosse um quadro branco que desse a ler o cansaço. Tentou, mas sem êxito. Não encontrou leitor. Só a tal bailarina o entenderia. A tal, a que dançou voando sobre os sons que recusavam o silêncio. Talvez tenha tocado em pontas o chão sublime de sons inaudíveis. Quanto tempo dançou? Dizia: Sempre. Como quem assina o próprio nome. Não podia parar o diálogo com o pianista, o que conhecera tocando uma melodia que nunca ouvira. Construída de lamentos de ervas pisadas e de risos de malmequeres ao sol. A música tecia-lhe as vestes e o piano tocava sozinho se as mãos dele vinham guiar-lhe a cintura. Quando a música parou e as mãos se esfumaram, um cansaço branco, muito branco, a envolveu. Deitou-se sobre o piano, o cetim das sapatilhas no teclado a desenhar um acorde extravagante. Ela entenderia a brancura do quadro. Mais ninguém.


Esta a minha resposta a um desafio de uma rosa sem espinhos chamada Maria.

LICÍNIA QUITÉRIO

17 comentários:

M. disse...

Está muito bonito, Licínia.

TINTA PERMANENTE disse...

Poético! E transversal o conceito de silêncio...
(lendo, claro, o que por lá escrevi...)
Abraço!

Entre linhas disse...

Muito origian a continuação...

bjs Zita

alice disse...

uma boa resposta, licínia, para um bonito desafio da maria. assim é a verdadeira blogosfera. onde todos partilham as palavras, as imagens, a criatividade. gostei muito de ler e deixo um grande beijinho *

agua_quente disse...

Belíssima, essa noção de cansaço branco. De uma poesia extrema.
Beijos

Ana Prado disse...

Está... como só poderia estar. Não sei se o texto foi escrito para o quadro se o quadro pintado para o texto.
Belíssima a ideia da Maria.

aquilária disse...

um cansaço branco que é, também, ausência.
a arte de entender,como tu muito bem escreves, as histórias que uma tela branca pode contar.

abraço grande

un dress disse...

...espera

o reconheciMento

do branco




em silêncio.

Opintas/Bernardo disse...

Pois. Mas uma rosa sem espinhos será rosa?
Boa noite.

herético disse...

a metamorfose da pintura em dança.ou será o contrário? aquela nota de piano em fundo azul, certamente. apesar da sépia.

gostei mto.

Amaral disse...

Diria que a simbiose não surge por acaso! Da arte da pintura à arte escrita dista uma fio ligeiro a separá-las.
A harmonia dá as mãos e faz a música soar serena nas pontas da dançarina, nas teclas brancas dum piano...
Porque adorei, não sei o que realçar: se o óleo sobre a tela, se as palavras a vibrarem num texto a condizer!...

maria disse...

Por vezes tens esse efeito em mim, querida Licínia... as tuas palavras deixam-me sem palavras.

Vou apenas agradecer-te o facto de teres participado no desafio e, mais uma vez, da única forma que te conheço, sublime na escrita, (como no convívio, suponho. Esta última apenas posso adivinhar, mas estou certa de que assim é!).

Unm beijo grato e terno.

Sandra disse...

Não sei de qual gosto mais: se da tela de Júlia Calçada, se da que acabei de ler. Sao ambas lindíssimas!

Beijinho

sonhadora disse...

a noite ao cair envolve tudo e os sonhos acariciam o meu corpo de cetim.
Beijinhos embrulhados em abraços

JPD disse...

e respondeste adequadamente.
Muito bem, Licínia!
Bjs

sonhadora disse...

No sonho me embriago com as suas palavras.
Beijinhos embrulhados em abraços

Era uma vez um Girassol disse...

Fui ver as telas...
Encantei-me e achei o desafio engraçado!
Texto e imagem perfeitos.
Bjinho

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