25.4.07

25 DE ABRIL

Só tarde fora o meu novo PC iniciou a sua vida activa.
Não me deixou falar de Abril como queria e devia.

Quando o admoestei pela demora, disse-me:
"Também Abril tardou. Mas chegou."
Hei-de descobrir quem o programou tão assisadamente.

QUE VIVA ABRIL NOS NOSSOS CORAÇÕES
!

Licínia Quitério

19.4.07

TRISTEZAS



Digo-me quando triste
e nas palavras ponho incenso
e deixo arder as velas
até queimar as mãos
No ar arrisco frases
que se vestem da textura dos crepes
e são ágeis como o corpo das medusas
capazes de bailar no mar
sem o tocar

Poderia dizer-me
ausente ou indiferente
como os olhos dos loucos
como os olhos da fome
mas tristeza não é fome nem loucura
Digo-me quando triste
e sei porquê


Nasceu ali sem se fazer anunciar. Uma plantinha minúscula, sem brazão. Não davam por ela. Inesperadamente, num dia triste de inverno em despedida, floriu. Como um floco de neve poisado no canto do degrau. A senhora da casa reparou nela, tocou-a num afago e passou a dar-lhe os bons dias. Jurava que a flor lhe respondia com um breve estremecimento. Resistente, a plantinha com sua flor de neve e olhinhos de oiro. A primavera chegou e ela ali, muito firme, muito serena, sempre discreta.Contou-me a senhora da casa como triste ficou no dia em que o degrau se sombreou de luto por lhe terem arrancado a companheira. Disse: Apeteceu-me chorar. Pudera! Quem não chora quando perde um amigo com olhos de oiro?

Licínia Quitério

12.4.07

ARTES



"LES TROIS ARTS" - óleo sobre tela de JÚLIA CALÇADA

Só podia ser a sépia, respondia. O que a pintora queria mesmo é que fosse um quadro branco que desse a ler o cansaço. Tentou, mas sem êxito. Não encontrou leitor. Só a tal bailarina o entenderia. A tal, a que dançou voando sobre os sons que recusavam o silêncio. Talvez tenha tocado em pontas o chão sublime de sons inaudíveis. Quanto tempo dançou? Dizia: Sempre. Como quem assina o próprio nome. Não podia parar o diálogo com o pianista, o que conhecera tocando uma melodia que nunca ouvira. Construída de lamentos de ervas pisadas e de risos de malmequeres ao sol. A música tecia-lhe as vestes e o piano tocava sozinho se as mãos dele vinham guiar-lhe a cintura. Quando a música parou e as mãos se esfumaram, um cansaço branco, muito branco, a envolveu. Deitou-se sobre o piano, o cetim das sapatilhas no teclado a desenhar um acorde extravagante. Ela entenderia a brancura do quadro. Mais ninguém.


Esta a minha resposta a um desafio de uma rosa sem espinhos chamada Maria.

LICÍNIA QUITÉRIO

8.4.07

ANIVERSÁRIO

Digo? Não digo? Digo. Este blog foi criado faz hoje um ano. Eu sei que isso pouco acrescenta à vida que lhe dei. Um ano é só um ano, é só um ano. Mas devo ao Sítio do Poema esta meiguice. Ele tem sido muito amável para comigo. Não se limitou a ser um suporte virtual de coisas que escrevo. Não cumpriu o mero papel de montra. Deu-se. Agarrou-se aos fiozinhos invisíveis que com ele se cruzam e desvendou caminhos e encontrou pessoas e falou com elas e delas fez amigos. Aceitou o figurino que lhe dei e não pediu outras roupagens. Diz que se sente bem assim, por agora. Pus-lhe uma folhinha alaranjada ao peito e disse-lhe que se chamava plátano. Ele sabe que não é, mas não me desmentiu. Com ela se vai anunciando em visitas a amigos. Atreve-se a fazer comentários, mais ou menos sérios, mais ou menos brincalhões. Nem sempre muito acertados, talvez porque nem sempre acorda com a cabeça no lugar. Abre um sorriso que só eu vejo quando lhe deixam recados bonitos, generosos. Muito mimado este blog. Quando decidi colar-lhe no vidro da janela fotografias que eu faço, fez um ar de desdém e murmurou: “Atrevimentos...”. O certo é que se conformou e ainda não rejeitou alguma. Paciente, este meu blog. Quando estou muitos dias sem lhe dar um post, sinto-o puxar-me pela manga, como a dizer: “Então? Estou farto de descansar.”. Enérgico este blog. Um dia destes deu em refilar e disse-me: “Eu não pedi para nascer!”. Algum de vós o ensinou a dizer isto?

Vai ficar surpreendido quando vir que hoje não tem poema, nem foto. Não faz mal. Depois explico-lhe que há sempre um dia em que descobrimos que alguém mudou as cores da nossa casa sem nos perguntar. Assustamo-nos, mas continuamos a habitá-la.

P.S. Em nome dele, o meu agradecimento a todos vós.

Licínia Quitério

1.4.07

ÁGUAS


Tudo era água
e eu deitada nos leitos curvilíneos
das sereias
Era um canto longe
e eu dormente na viagem ritmada
das algas
Aromas de velas
antes do tempo ardidas
Todos os barcos encalhados
em súbitos baixios

Só eu só água
só o salto prateado de um peixe
só reflexos de mim
só a crua mudez dos oráculos

Da praia nem sinal


Há tanto tempo queria ver os golfinhos nas brincadeiras que se dizia acontecerem no estuário do grande rio. Ontem subiu para o barco e lá foi. O sol muito aberto picava-lhe a pele sardenta dos ombros. Com irreverência, tirou o chapéu da cabeça, atirou-o ao rio e deixou que o vento lhe soltasse os cabelos. Sentia-se tão bem. Rodeada de azul e verde e oiro. Foi até ao varandim da proa. Quase sem barco. A sós com as águas cheias de algas, de peixes, de medusas. Pirata nas Caraíbas. Num barco para Ítaca. Podia ter sido tanta gente. Podia ter estado em tanto lado. Mas era só uma mulher devassando as águas com o olhar salgado, na esperança de ver uma dança de golfinhos. Com um pouco mais de imaginação, até seria capaz de avistar uma sereia. Foi aquele sol a pique. Hoje acordou com febre. No sono agitado, sentiu que alguém lhe beijava as mãos. Regressará ao rio. Desta vez os golfinhos não faltarão ao encontro. Ah... e não voltará a dar o chapéu às águas.


Licínia Quitério

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