30.4.10
LEMBRANÇAS DE UM MAIO
Vermelho, sim, como as papoilas
e os lábios quentes das mulheres
e o canto livre que de outra cor
não se fazia.
Vermelhas as roupagens
da liberdade que soava
e punha mãos em mãos
que não se conheciam.
Tão doce o amor nascido
de gestos improváveis
e olhares incendiados
como nunca se vira.
Nome não teve a festa
porque sem nome é tudo
o que é maior que o sonho.
Havia sede, uma sede imparável
e a água se oferecia
que tudo era sem preço nesse dia.
Cravos vermelhos havia
nas portas e nos braços
dos rapazes que sorriam
perdido o medo da alegria.
Era um clamor de passos
uma batida que ecoava
na quentura dos ares
e entontecia.
Era um rio de pássaros
de asas vermelhas
como o riso das moças.
E os poetas não pararam de dizer
a urgência da palavra
há tanto encarcerada e agora aberta,
inteira e ousada.
Ela também vermelha como o dia.
Licinia Quitério
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24.4.10
25 DE ABRIL de 2010
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17.4.10
DEMANDAS O ABRIGO
e nela o sono breve e inquieto.
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8.4.10
ANIVERSÁRIO
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4.4.10
O POEMA NÃO VEM
O poema não vem quando se chama
Desobediência é sua inclinação
ou seu jeito de ouvir é uma brandura
que só percebe falar de coração
Aguardarei que a pedra
lançada ao lago no anoitecer
regresse reluzente à minha mão
e se diga palavra ou vento ou amanhecer
Licínia Quitério
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24.3.10
LEVE A CARÍCIA
Leve a carícia deste sol de Março
com matizes de nuvens em farrapos
rasando as agudezas dos pinheiros.
Penso no sol de outras primaveras
e não sei se o que penso é somente
o desejo de alguma vez o ter sentido.
Observo os gatos em gestos obsessivos
de lavarem com sol o corpo inteiro
e é o meu corpo inteiro que se alonga
até às águas primevas da memória.
Um homem e uma mulher amam-se
desde o dia em que decidiram saber
se o amor que os outros dizem tem
o sabor de amoras rubras ou é tão só
a alegria de haver amoras nos caminhos.
Talvez eu esteja longe e tenha envelhecido
na contemplação das horas que não mudam
porque nada muda nem as dúvidas
que carregamos no côncavo do tempo.
De pouco serviria o afago deste Março
se a cicatriz do frio não morasse no longe
onde talvez eu tenha envelhecido
olhando um homem e uma mulher
que se amam decididamente na alegria
de amoras rubras em breves descaminhos.
Licínia Quitério
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15.3.10
É BOM HAVER COMBOIOS
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7.3.10
DERIVA
Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais
As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Apeteceu-me reler Sophia. A das palavras claras que penetram no fundo do tempo. Sempre me encanta. Começo a sentir saudades dos poetas que escreveram na luz. Há por aí tanta escuridão, tanta fealdade, em jovens poetas talentosos. Sinais dos tempos, dizem-me. Sinto pena. Por eles, por mim.
Licínia Quitério
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26.2.10
AS DOCES MÃOS DA INFÂNCIA
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19.2.10
RUÍNAS
Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm
trepadeiras de campainhas azuis
que sempre voltam com as andorinhas,
ou os gatos invisíveis nos parapeitos,
a lamberem feridas inventadas,
ou os restos teimosos da tinta verde
nas paredes da sala de jantar,
ou o frio respirar das lagartixas no beiral.
Lá dentro, uma tosse miúda, persistente,
ou um ranger de portas empenadas
ou os talheres a tilintar na mesa,
a abafar suspiros censurados,
ou os gritos do medo pelo escuro
ou tão só o piar do velho mocho
ou as correrias das crianças:
não me apanhas, não me apanhas…
Ali a casa ainda habitada
a alimentar ruínas.
Licínia Quitério "Da Memória dos Sentidos"
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12.2.10
O MAR IMENSO, DIZIA
O mar imenso, dizia,
como se dissesse sede de viagens.
A leveza das aves, dizia,
se o ar não se detinha no cálice das mãos.
As pedras robustas, dizia,
quando não sabia das areias
movediças, no jardim da casa.
Nos umbrais das esperas,
os frutos maduraram,
as crianças cresceram.
Já era velha a tarde
quando a estrada lhe pegou os passos,
duas gotas de orvalho nos cabelos,
uma lua de prata presa ao peito.
Foi a hora de aprender com as cigarras
o ofício de cantar a vastidão dos campos
e o breve breve tempo do Verão.
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3.2.10
QUANDO A SOMBRA
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27.1.10
AMEI O VERÃO
Amei o verão e as sombras ofertantes
de grutas e desvãos e amáveis
copas aos tórridos amantes.
Imensa a praia onde me deitei
e mais ninguém pisou como eu pisei.
Eram então os dias em que o corpo
se vestia de carmim e açafrão
para receber o desenho dos pássaros
na frescura da lâmina da tarde
e a minha escrita era líquida e nua
a deixar-se tomar por peixes verdes
que um poeta andarilho me oferecera.
Foi claro e breve o tempo da inocência.
A praia essa continua imensa.
Licínia Quitério
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18.1.10
HAITI
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11.1.10
O GRITO
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3.1.10
COM O VENTO NO ROSTO
Com o vento no rosto e as mãos despidas
detemo-nos e escutamos
um murmúrio de vozes muito antigas.
Aos nossos pés tombam palavras
fatigadas de saberem tantos mares.
É quando as aves saem da paisagem,
um manto de espuma cobre a praia
e uma janela se abre sobre o tempo
que somos. O corpo esse nos sobra
dorido e persistente guardador
das marcas de água ou do nosso rasto.
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27.12.09
BOM ANO
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18.12.09
OS SINOS
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6.12.09
VAI LONGE O TEMPO
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27.11.09
DA AUSÊNCIA
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam. Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.
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