25.4.11
25 DE ABRIL de 2011
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18.4.11
FOZ
Um rio de securas,
porta aberta ao mar,
desejo forte de onda,
sonho de barcos, de remos,
de velas. Quem lhe dera.
Teve peixes, sim,
de prata pura.
No tempo das raparigas
de bronze e dos rapazes
da jangada,
das bocas das raparigas,
das vozes dos rapazes.
Foi um rio de risos,
de ousadias, de chapéus de flores,
de ninfas e efebos,
de iniciações e descobertas.
Um rio de foz,
sem novas de nascente,
um rio leito
de frescura e ardência.
Era jovem, amado
e as gaivotas poisavam
na sua respiração
de madrugar.
Se o mar de novo entrar
quem sabe brilharão
os dorsos das tainhas
e os chapéus de flores
e os bagos de oiro
voltarão a enfeitar
os risos de outras margens.
Licínia Quitério
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10.4.11
A ÁRVORE
A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Quem sabe ela ali estava antes de a desenhar
no meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore,
será com a caligrafia dos teus ramos
bebedores do azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs.
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos te não suportam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
ou embaraço de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas, esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca.
Licínia Quitério
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5.4.11
SE EU SOUBESSE PINTAR
Se eu soubesse pintar diria azul em tudo o que tivesse
uma passagem para o mar por mais modesta,
qual semente de linho a acercar-se do rio. Verde
diria os meus olhos nos teus e os teus nos meus,
espelhos de sonhos e batalhas. Vermelho seria
o jeito de dizer a vida em mim e a mesma vida
em ti e o canto dos camponeses, afinado pelas
cigarras, a fabricar a mais produtiva das preguiças.
Havia de ser amarela a escrita do sol a invadir
o quadro, a incendiar de febre esta mão, ignorante,
inábil, incapaz de traçar as marcas do teu rosto
no meu rosto, iguais, exactamente iguais,
às marcas do meu rosto no teu rosto, assim tão
fáceis de dizer num risco só, simples, como as
pequenas gotas do pequeno orvalho das enormes
madrugadas.
Se eu soubesse pintar, quem sabe eu procurasse
o branco que dissesse a casa que habitámos.
Licínia Quitério
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31.3.11
PEDRA A PEDRA
a memória dos tempos. Em Matchu Pichu,
na Grande Muralha, na Grande Pirâmide,
ou em Babel que se diz teve uma torre.
Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor,
chicote a chicote, a construção não para.
Mais alto, sempre mais alto, que a terra
é pouca e o céu é vasto. Inventam as escarpas
e sobem-nas, pé aqui pé ali, até ao medo.
Não olham para baixo que a pele da terra
os enfeitiça e no seu ventre há fogo. No topo,
diz-se, um ceptro de oiro a atiçar a cobiça.
Por ele continuam, ferida a ferida, corda a corda,
e as mãos sangrando, e as pedras poderosas
com janelas de sol, medindo luas, predizendo
futuros. Pelas alturas devorados, os homens
não regressam e já ninguém os sabe nomear.
Machu Pichu, Esfinge, Stonehenge, as pedras
essas ficaram e têm nomes. O ceptro de oiro
só o condor sabe onde reluz, mas não o diz,
e os homens continuam, de dor em dor, mais
alto, cada vez mais alto, cada vez mais longe,
até à fraga onde perdem o nome.
Licínia Quitério
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27.3.11
COM TUAS MÃOS
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23.3.11
TÃO ESTRANHA A NOITE
Tão estranha a noite. A noite e os escombros, cicatrizes de diurnos abusos, esconderijos de vigilantes répteis e seus membros renascidos. No meu coração a pele dos muros, alfabeto de povos chacinados no sono acre dos deuses. Cabeleiras vegetais alongam os ombros da noite, encobrem a desistência das pedras, desenham tranças e cabalas. Há homens que acendem luminárias e as põem a vogar na noite. Com elas os espectros e as gargalhadas tracejantes onde não poisam flores. Nos meus olhos a grande lua e os seus presságios de nascimentos fáceis e marés altas e súbitas germinações. Ela me deixa aperceber o recorte do polipódio, verde pela manhã.
Licínia Quitério
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17.3.11
QUEM TE DISSE
Quem te disse, meu amor, mentiu,
Verdade és tu e os teus sentidos, e os teus pressentimentos, e os teus sonhos, e o teu olhar de fera ou o teu olhar de pomba, e os teus cabelos soltos ou os teus cabelos presos, e o teu desejo em fonte ou o teu desejo em fogo,
O resto, os mundos saberão se aconteceu,
Licínia Quitério
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14.3.11
AVISO
QUEM QUISER ADQUIRIR O MEU LIVRO "POEMAS DO TEMPO BREVE" PODERÁ CONTACTAR-ME ATRAVÉS DE
liciniaquiterio@sapo.pt
ESTE É O POST MENOS POÉTICO QUE ALGUMA VEZ PUBLIQUEI, MAS PENSO QUE COMPREENDEM!
MUITO OBRIGADA.
LICÍNIA
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11.3.11
"POEMAS DO TEMPO BREVE"
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9.3.11
AINDA QUE QUISESSSES
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2.3.11
PODIA DIZER-TE
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.
Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (porque não?): Amo-te.
Não podia dizer o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.
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18.2.11
CONVITE
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13.2.11
DEIXEM-ME
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4.2.11
UMA COR
A voz do meu amigo é da cor do canto dos riachos de margens muito antigas, polvilhadas de amoras e silêncios.
A pele do meu amigo é da cor da ardência do deserto e do arrepio da tundra.
O sangue do meu amigo tem a cor dos sonhos dos homens, das estrelas moventes, não cadentes, da respiração dos escravos, ao longe.
Uma cor, duas cores, sete cores, até ao pote de ouro, ao coração da terra, ao bicho cego, ao prenúncio do verde.
Uma cor, uma só cor, a maior, a mais serena de todas as cores, aqui à mão, aqui ao peito.
Uma bandeira contra o negro.
Pobre de quem não sabe
a cor do amor,
igual ao mar
de amar.
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3:27:00 p.m.
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25.1.11
TENS DE SENTIR
tens de acreditar na dança diurna das estrelas.
não terás outra vantagem para o amor.
duvida sempre da perenidade das águas no teu rio,
da persistência da alegria no teu andar de corça.
tens de estar atenta ao calendário das marés
se queres saber a soma dos teus passos.
olha as chagas nos ombros da velhice e,
se vires a fragilidade das perpétuas roxas,
foge da vidraça e espera o riso.
ele há-de passar rente à janela.
depois enrola-o no pescoço e diz
agasalho como se dissesses
recomeçar ou abrir os olhos no primeiro verão.
Licínia Quitério
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18.1.11
A MADRUGADA
De uma asa onde mora o inteiro pássaro.
Espero o vento cor de mel da manhã adulta, povoada de signos e augúrios, a soprar a poalha de amores nascidos no perfume do anoitecer.
Afirmo não saber o gosto das manhãs e sempre me confundir e dizer azul em vez de beijo, sanguíneo em vez de saliva, flor de zimbro em vez de baga, algodão e não canela ou camomila.
Tamanha é a minha esperança na asa, no pássaro novo, na espuma do dia claro, na força do vento morno.
Licínia Quitério
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12:58:00 p.m.
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11.1.11
UM POEMA DE AMOR
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3.1.11
O TEMPO
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte
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23.12.10
IMAGENS
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19.12.10
AJUDA-ME
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12.12.10
CAVALEIRO TRISTE
Também eu esgrimi contra gigantes
e a minha espada não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo.
Licínia Quitério
Foto da minha Amiga Bettips
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5.12.10
INVERNO
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27.11.10
ACREDITA EM MIM
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16.11.10
O CORAÇÃO DA PEDRA
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6:46:00 p.m.
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8.11.10
POR VEZES
Por vezes tudo se confunde. As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde e sou a sombra.
Por vezes.
Licínia Quitério
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30.10.10
TU SABES
Dizes que muito sabes quando te sentas na praia
e silente enfrentas céu e água e com eles relembras
artes de voar e marear como se fosses peixe
como se fosses pássaro. Conheces os fundos
das cavernas e a textura das algas que nomeias.
Já foste mastro e vela no tempo em que aprendeste
o odor e a cor dos ventos. Ouviste vozes que só
podiam vir de novas gentes. Partiste e foste casco
e abrigo de vontades, de ousadias. Foi a estrada
do mundo mulher nova que se abriu ao teu desejo
secular de possuir a terra e a fecundar. Gravaste
a ferro e sangue sinais de amor e dor nos campos
da conquista temerária. Sempre voltaste à praia
da saudade para entregar o oiro e as cicatrizes.
A mesma praia onde agora te sentas e entranças
memórias e acenas aos barcos e às gaivotas.
Perdido o oiro e o rumo, as terras saqueadas,
vais fingindo esperar o nevoeiro que não virá,
tu sabes.
Continuarás, imóvel, a inventar um sonho
possível como todos os sonhos, tu sabes.
Licínia Quitério
Respondendo a perguntas de alguns meus queridos comentadores, esclareço que todas as fotos que publico são minhas, salvo indicação em contrário. Sou assim a única responsável pela ousadia. Obrigada a todos.
Licínia
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7:26:00 p.m.
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22.10.10
DESASSOSSEGO
de gentes cabisbaixas, com a palidez no olhar.
Num raio de sol vem um farrapo de saudade
da outra cidade em que bebemos flores
e nos embriagámos. Imóvel a barcaça que fundeou
no cais e ali ficou disposta a recolher o que sobrou
desta gente traída, espoliada do sonho, do azul.
Guardadas as palavras bem no fundo do peito
não vá alguém roubá-las e devolvê-las decepadas,
prostituídas, insonoras. Desassossego é esta
abordagem do silêncio no dobrar das noites.
Dormentes sobre os retalhos de falas coloridas,
de abraços de oiro, de coração a coração,
vamos olhando o templo e os vendilhões.
Amanhã visitaremos a barcaça, mas desta vez
não partiremos. Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.
Licínia Quitério
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14.10.10
ÁGUAS VIVAS
Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs.
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.
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10:52:00 p.m.
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8.10.10
VEM DA ÁGUA
Vem da água e do sangue e do fogo aceso
pelo amor quando penetra o mesmo amor.
De um minúsculo grão se faz um homem
e a sua história é sempre igual à história
de outro homem. Nos sentidos que houver
há-de saber o mundo, mas nunca saberá
onde começa e acaba a sua própria casa.
Será máximo e ínfimo, tão perto das estrelas
como do irmão distante. Uma águia no penhasco,
quando abraça a amada, uma ameba,
uma lama quando lhe foge o filho.
Um farrapo de rua ou um rei poderoso
- o nada igual a nada.
Mineiro de metais, de versos ou memórias,
perguntará aos retratos antigos a cor dos olhos,
a explicação das coisas simples fora da sua mão.
Lutará pelo oiro das sementes e pelo banho
de luar junto das ninfas em bosques de paixão.
Partirá sem certezas, sem moedas, sem pranto,
numa nau de viagem, para o destino maior.
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3.10.10
DESFOLHO-ME
desfolho-me cansada de verão.
dispo-me. ofereço o corpo ao vento.
rasgo-me nas arestas da infâmia.
grito. e a minha boca é um prado ardente.
um animal sem nome. tenho sede e tenho
todos os rios da noite na cintura.
respiro. ou não. estou viva. já pari todos
os filhos de ninguém. estou só. como tu.
como todos. quero tombar como
os plátanos. com as raízes hão-de vir
as casas com gente dentro. sou cruel.
amo. amo tudo o que houve antes de mim.
tenho cheiro de lírios de caminhos.
sou pura. amo tudo o que sei e o que não sei.
libertei todos os bichos. abri gaiolas e jaulas.
tenho fome. nenhum manjar me serve.
já comi mirtilos e coentros e maçãs.
isso foi no tempo de correr os campos.
fui gazela. nunca os leões me feriram.
sou mansa. sou fúria. saiam da minha rua.
estou nua e canto. não sou pedra. sangro.
reclamo as jóias do futuro. que virão.
sou sibila.
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10:06:00 p.m.
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28.9.10
SÓ AS ÁGUAS
Só as águas me acalmam. Águas frias
dos deuses regressados da loucura.
Nelas mergulho as mãos ao encontro
dos peixes da alegria. Com elas vão
os olhos e as imagens daqueles dias
em que o dia foi de todos. Antes
do saque da cidade. Antes dos muros.
Antes de nos venderem o medo de ter medo
e as sete chaves para fechar o coração.
As águas me darão o santo e a senha,
o novo abre-te sésamo das portas
da abundância repartida, do amor
de mão em mão, da claridade.
No hoje espero, as mãos na água,
e com elas os olhos e os pés bem firmes
na brancura das pedras que restaram.
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6:47:00 p.m.
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21.9.10
SÓ O VENTO
Foto de aguarela de MANUEL ARRUDA, por atenção da Fátima.
Não é igual o chão e os pés que o conheceram estão cansados.
As casas resistiram até à nova idade. Ruínas foram de pobreza
e galhardia. Aguentaram firmes na espera do pintor que tinha olhos
e mãos para as saber. Outro o chão outras as casas outras as vozes
ou ainda as mesmas, de memória vazia. Alguém dirá um dia:
era uma vez uma varanda e uma escada e uma casa e decerto
pequenas as histórias da pequena miséria da casa tão pequena.
Mesmo à beira da casa esteve a árvore que tudo soube e calou
e à terra entregou o seu saber de sol e água e choros de gente
que só ela ouviu. Os pés cansados no chão já não o mesmo
sentirão, na descida tarde, um rumor de seivas, um adejar sem
asas, um tactear sem mãos. Ramagens de outro tempo.
Só o vento ficou.
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4:50:00 p.m.
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15.9.10
AS OLIVEIRAS
Nesse tempo as paredes eram todas oblíquas.
Ao razá-las as aves quebravam o limiar das asas.
Impediam os filhos de deixarem o ninho.
Nesse tempo o chão era uma onda negra,
um dorso de dragão com espinhos de cristal.
As maçãs recusavam-se a deixar as árvores
e apodreciam de medo no cansaço dos ramos.
Nesse tempo o silvo dos comboios foi destruído
pelo grito dos homens que abrasava a planície.
Foi decretada uma nova geometria e as paralelas
morreram sem se terem beijado no infinito.
Foi banido o ângulo recto e as dores se tornaram
agudas e os sonhos obtusos até à anulação.
Foi o tempo do fogo e da avidez dos corvos
sobrevoando as cinzas. Tornou-se obrigatório
o choro dos violinos e o latido dos cães.
Proibida para sempre a vertical da vida.
Mais tarde, muito tarde, vieram as oliveiras.
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3:36:00 p.m.
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10.9.10
SOMOS
Somos carne, somos pele, somos ossos.
Somos assombro ou sombra, luz ou treva.
Chamam-nos gente e dizem-nos:
um homem bom, uma mulher ardente,
um zé ninguém, um estorvo, uma
Maria mais de deitar sem dormir.
Têm medo de nós se somos prumo.
Fazem troça de nós se está vazia
a gaveta do oiro.
Somos sangue e suor e sémen e saliva,
as dores da terra, a pressa dos rios, as águas do amor.
E o cansaço, esta vara atravessada de ombro a ombro,
que nos sustem o corpo e nos perfura os sonhos, o desejo.
Somos tudo, somos nada, somos ontem, somos hoje.
Podemos amanhã ser a saudade e com ela fazer
uma estátua, um poema, a rosa branca de toucar,
um beija-flor, ou apenas boca que se deixa beijar.
Somos isto. Um animal que ri e chora e luta
e desanima e se reergue e abraça o dia
de vindimar, ou de cozer o pão, ou de acabar o livro
prestes a começar.
Licínia Quitério
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4:30:00 p.m.
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1.9.10
CREPÚSCULO
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